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Religião e Política: a fé não pode ser partidarizada


Walbert Monteiro*


Insisto no que há muito tempo venho afirmando: religião não é instrumento de partido político. É inadmissível que lideranças eclesiásticas incentivem comunidades a se deixarem capturar por ideologias transitórias. A fé não nasceu para servir a projetos de poder, mas para transformar consciências e orientar a sociedade com valores perenes. Quando se curva a interesses partidários, trai a própria missão.

Em tempos de polarização, cresce a tentativa de instrumentalizar a religião para fins ideológicos. Trata-se de um fenômeno perigoso, que submete princípios eternos à lógica imediatista das disputas eleitorais É preciso entender, o que já deveria ser cristalino: a religião é um conjunto de princípios sólidos e inegociáveis que devem presidir a vida individual e coletiva. No caso do cristianismo, esses fundamentos estão claros nos ensinamentos de Cristo e, na Igreja Católica, na sua Doutrina Social, nascida das Sagradas Escrituras e forjada ao longo de séculos de reflexão e testemunho.

Essa doutrina não depende e jamais dependerá de partidos políticos para ter relevância ou força moral. A Doutrina Social da Igreja não é uma plataforma política de ocasião, mas um conjunto coerente de princípios — como a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade, a justiça e a paz — que dão rumo à ação do cristão no mundo. Por isso mesmo, a Igreja não precisa aderir a nenhum partido político para ter posição diante dos grandes temas sociais. A sua força moral e profética está exatamente no fato de transcender as disputas partidárias.

A Igreja não tem — nem deve ter — lado partidário. O seu lado é o Evangelho. Não se exige dos fiéis fidelidade a siglas, mas coerência com a fé. Ser cristão não é vestir a camisa de um grupo ideológico, mas a de Cristo. Isso implica formar consciência política, e não subserviência: votar com base em critérios éticos, julgando programas e candidatos à luz dos valores do Evangelho e do respeito à vida e à dignidade humana.

A Igreja não pode ser massa de manobra de qualquer ideologia. Quando líderes religiosos se tornam cabos eleitorais, a fé vira palanque e se transforma em propaganda. Religião é farol — e farol não se move conforme o vento político. Sua missão é iluminar consciências e formar cidadãos comprometidos com o bem comum.

Por isso, cabe à Igreja incentivar, sim, que seus membros tenham consciência política, mas jamais subserviência partidária. Consciência política significa raciocinar com a própria cabeça, julgar com base em princípios morais e valores cristãos, e não repetir discursos prontos. Um cristão consciente não vota por paixão, por slogans ou por manipulações, mas a partir de critérios éticos e da coerência com os valores do Evangelho. É olhar para programas e candidatos e perguntar: defendem ou atacam a vida? Respeitam ou afrontam a dignidade humana?

E aqui, mais do que nunca, é preciso ser claro: quem defende o aborto, a descriminalização das drogas ou a ideologia de gênero está em frontal contradição com a doutrina de Cristo.

Partidos passam, ideologias mudam, mas os princípios evangélicos permanecem. O altar não é comitê eleitoral, a Palavra de Deus não é jingle de campanha e o Evangelho não está à venda. Que cada cristão seja cidadão consciente e ativo, votando com a razão iluminada pela fé, sem confundir púlpito com palanque. A voz da Igreja deve ser sempre profecia do Reino de Deus, nunca eco de partidos.

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*Jornalista e escritor, mantém coluna semanal n'O Liberal, de Belém, PA.

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