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PREFÁCIO*

Sarah Castelo Branco Monteiro Rodrigues


Há livros que nascem do engenho literário; outros, da memória coletiva. Mortes na Cidade Flutuante pertence a esta segunda estirpe: é obra que emerge das águas do Rio Negro como testemunho, denúncia e poesia trágica. Não se trata apenas de uma narrativa policial — embora o seja, com notável domínio do suspense e da investigação —, mas de um documento literário que fixa, em linguagem sensível e rigorosa, um capítulo doloroso da história social amazônica.

Agildo Monteiro Cavalcante escreve com a autoridade de quem conhece o chão (ou melhor, as águas) sobre as quais constrói sua ficção. Filho da rua Beira-Mar, ilhéu por nascimento e por destino simbólico, o autor transforma a cidade flutuante em personagem viva: ela respira, sofre, boia entre a esperança e a tragédia. As casas, os igarapés, as catraias, os vendedores, as crianças, os mortos — tudo participa de uma coreografia humana que oscila entre a normalidade cotidiana e o assombro do crime.

Do ponto de vista técnico-literário, a obra dialoga com a tradição do realismo social, aproximando-se, em muitos momentos, do romance-documento. A narrativa é construída em fragmentos quase cinematográficos, nos quais o autor alterna cenas de investigação policial com quadros de vida cotidiana, criando uma tessitura narrativa densa, coral e profundamente humana. O crime não é apenas um fato isolado: ele funciona como catalisador das tensões sociais, da violência estrutural, do preconceito e da fragilidade das instituições diante da pobreza.

A escolha de transformar As Paisagens Mortas nesta nova edição — agora assumidamente como novela policial — não descaracteriza o espírito original da obra; ao contrário, o amplia. O mistério serve de fio condutor para revelar algo maior: a morte simbólica de um modo de viver, de uma geografia humana condenada pela ideia de “progresso” que exclui, remove e silencia. As casas flutuantes, vistas como vergonha estética e obstáculo à modernidade, tornam-se, na pena do autor, metáfora pungente da invisibilidade social.

Há também, e isso merece especial relevo, uma linguagem que oscila entre o registro seco do fato e o lirismo contido. Agildo escreve com sobriedade, mas não abdica da poesia. O rio é cenário e destino; a chuva, prenúncio; a noite, cúmplice do medo; o amanhecer, insistência da vida. A oralidade dos personagens, cuidadosamente preservada, confere autenticidade ao texto e reafirma seu compromisso com a verdade humana dos que ali viveram.

Como amazonense, leitora e acadêmica, reconheço nesta obra um valor que ultrapassa a literatura regional. Mortes na Cidade Flutuante fala da Amazônia, mas fala também do mundo: dos deslocados, dos marginalizados, das comunidades empurradas para fora do mapa oficial das cidades. É livro que dói, porque lembra; e é livro necessário, porque não permite o esquecimento.

Que o leitor se aproxime destas páginas com o respeito que se deve às histórias que não foram inventadas apenas para entreter, mas para permanecer. Aqui, a ficção é ponte; a memória, âncora; e a literatura, um ato de justiça.

Para concluir, é preciso render ao autor o reconhecimento que esta obra exige. Agildo Monteiro Cavalcante honra a literatura da nossa Amazônia ao transformar memória em linguagem, dor em reflexão e história em permanência. Sua escrita, madura e comprometida, revela não apenas o talento do ficcionista, mas a responsabilidade do intelectual que compreende o papel da literatura como guardiã do tempo e da dignidade humana.

Com Mortes na Cidade Flutuante, Agildo reafirma seu lugar entre os grandes narradores da Amazônia, oferecendo ao leitor uma obra sólida, sensível e necessária, que atravessa gerações e fronteiras geográficas. É livro que enriquece o patrimônio cultural da região e engrandece o catálogo de um autor cuja trajetória literária se confunde com o compromisso ético de narrar o que não pode ser silenciado.

Ao brilhante advogado, ao notável escritor amazonense, membro efetivo e perpétuo da Academia Paraense de Letras/ Cadeira no. 18, ficam os aplausos, o respeito e a gratidão dos leitores. Esta obra confirma que a verdadeira literatura não apenas conta histórias: ela preserva vidas, ilumina consciências e faz da palavra um ato de permanência.

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*Desembargadora do TJE/PA, Professora, escritora, poetisa, a autora integra a Academia Paraense de Letras- Cadeira no. 28. O autor de Mortes na Cidade Flutuante é amazonense e mora há décadas em Belém.

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