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O NOBRE DOM DE RIR DE SI MESMO (I)

Walbert Monteiro*


No próximo dia 18 de janeiro comemoramos o Dia Internacional do Riso, expressão facial que representa alegria, emoções positivas, indicando um estado de felicidade e bem estar. Mas, pode indicar, também, sentimentos subalternos como o escárneo com outras pessoas, satisfação com fracassos alheios ou simples ironia ante situações embaraçosas. Mas, creio ser fundamental que aprendamos a rir de nós mesmos, pois considero ser uma das formas mais elegantes de inteligência e, talvez, a mais esquecida nos tempos atuais. A humanidade aprendeu a rir dos outros com facilidade, mas desaprendeu a rir de si — e o resultado é um mundo repleto de gente ofendida, vaidosa, inflamável e incapaz de reconhecer o próprio ridículo. O humor, em sua vertente negativa, torna-se arma. Quando é dirigido a nós mesmos, torna-se cura.

Há quem veja nisso um traço de fraqueza. Engano. Saber rir de si mesmo é sinal de sabedoria e liberdade interior. É compreender que errar, tropeçar ou exagerar faz parte do aprendizado. É admitir que somos uma coleção ambulante de equívocos e boas intenções, de virtudes mal executadas e defeitos teimosos. E rir disso não é se diminuir — é, pelo contrário, libertar-se da necessidade insana de parecer perfeito.

Não por acaso, o santo e humanista São Tomás More, em sua célebre oração da serenidade, pediu a Deus algo precioso: “Senhor, dai-me uma boa digestão, e também algo para digerir; dai-me um corpo saudável e o bom humor necessário para mantê-lo; dai-me uma alma simples, que saiba aproveitar tudo o que é bom e que não se assuste com o mal; dai-me, Senhor, o dom de rir de mim mesmo, para que eu não me leve tão a sério.” Eis uma súplica divina e, ao mesmo tempo, deliciosamente humana. Tomás More entendeu que o riso, quando nasce da humildade, é uma forma de oração.

São Francisco de Sales também dizia que “um coração alegre faz mais bem do que mil palavras tristes”. Para ele, a verdadeira piedade não combinava com o mau humor ou com a rigidez da alma. A santidade, afinal, não é sisuda. Os santos sabiam rir — inclusive de si mesmos — porque reconheciam a pequenez diante de Deus. O humor, quando nasce da fé, é uma confissão de humanidade e de confiança: se Deus nos ama apesar de nossas trapalhadas, por que nós haveríamos de exigir de nós mesmos uma perfeição impossível?

Mas o mundo moderno, com sua ânsia por aplausos e reconhecimentos vãos, parece ter perdido o senso do riso verdadeiro. Vivemos tempos de autoimportância inflada, em que qualquer crítica é tomada como ofensa e qualquer ironia, como ataque pessoal. Rir de si virou pecado capital — especialmente nas redes sociais, onde todos tentam representar a melhor versão de si, como se a vida fosse um catálogo de acertos. E, quando o espelho mostra o contrário, há quem o quebre — em vez de rir da própria imagem distorcida. Meu amigo Milton Nobre costuma dizer que, todos os dias, deveríamos, ao acordar, olhar para o espelho e perguntar: “sou mesmo essa “Coca-Cola” que aparento ser?”

Rir de si é o primeiro passo para a humildade verdadeira. Reconhecer o erro sem fazer drama. Cair sem se fazer de vítima. Aprender com os erros e trazer um sorriso no rosto. O riso desarma o orgulho e abre espaço para o arrependimento sincero.

De certa forma, rir de si mesmo é admitir que somos criaturas em construção, e que Deus ainda não terminou a obra. Quem sabe rir de si não precisa humilhar o outro. E quem é capaz de reconhecer com humor os próprios tropeços, dificilmente cai na tentação da arrogância.

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O autor, jornalista e escritor e advogado paraense pertence à Academia de Letras do Pará- ALP.

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