O sentido da ausência
Lula deve ter avaliado as vantagens e desvantagens de ausentar-se do debate promovido pela rede Globo, na noite de hoje. A ponderação entre previsíveis perdas e ganhos certamente terá antecedido a decisão. Aos que não são totalmente alheios ao ambiente político e aos humores que costumam cercar as campanhas eleitorais, é lícito imaginar que ao menos duas particularidades foram levadas à balança do candidato à reeleição. A primeira delas, a participação de Lula acabaria por fazê-lo algo parecido com os quase desaparecidos judas do sábado de Aleluia. Todos os demais candidatos apedrejariam o favorito, tão faltos, em grau diferente um do outro, de propostas capazes de invalidar as que ele mesmo, Lula poderia mostrar. Neste caso, os números relacionados à economia, o índice de desemprego, a posição do Brasil no cenário internacional e índices relevantes nas políticas de habitação, educação, saúde e segurança apenas ensejariam contraditas tão vazias quanto agressivas. Mais que a qualquer um dos analistas, ao candidato ausente não falta a sensibilidade necessária adequada do quadro e do momento político. Dá o grau da fina percepção de Lula, sua conduta, ao ser preso para satisfazer o punitivismo inconsequente do ex-juiz Sérgio Moro e seus apoiadores. Ele córporifica a índole dos sertanejos como ele, como o disse Euclides da Cunha: é, sobretudo, um forte. Suas pernas não tremem, suas calças não se sujam, sua dignidade não é comprometida. Poucos, mas já os houve, passaram por igual sofrimento, prejudicados pela diferença fundamental - o trânsito em julgado do devido processo legal. Também algo há que se liga à ausência de Lula, embora não sejam muitos os que o percebem. Enquanto Lula, em três mandatos, conseguiu fugir à sedução autoritária, a maioria dos que se opõem a ele imagina-se candidato a ditador. Se ocorrer diferente, no debate que acabará por perder o sentido, darei a mão à palmatória.


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