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O PROLETÁRIO DOS DEUSES (ou sobre Hegel, Marx e Camus)


José Alcimar de Oliveira*


● Segundo uma conhecida sentença política (cuja autoria me é desconhecida), a guerra é o terrorismo dos ricos contra os pobres, e o terrorismo a guerra dos pobres contra os ricos.

● A fase explicitamente bélica do capitalismo do século XXI promovido pelo Império do Norte é a afirmação de uma luta de classes reversa, absurda e trágica para a classe trabalhadora.

● Em decadência irreversível, o Império, desesperado como uma besta ferida, faz da ameaça e da guerra (formas de terrorismo da plutocracia) sua estratégia final e agônica de sobrevivência.

● A invasão da Venezuela neste 03 de janeiro de 2026 e o sequestro do seu presidente, sob o pretexto do combate ao narcotráfico e da defesa da democracia, escancaram para o mundo que o texto da invasão, de imediato inominável, é parte do incontornável contexto capitalista, de barbárie social e catástrofe ambiental, que já define a geopolítica do presente e do futuro da humanidade, se houver.

● No século XXI como em sua gênese, mas hoje armada de eficiente aparato técnico-digital, a pilhagem assume o modo dominante de operar do capitalismo belicista do Império do Norte. A necrocracia orbita em drones.

● Escreve Camus, em O Mito de Sísifo, subtitulado de Ensaio sobre o Absurdo, que "começar a pensar é começar a ser consumido".

● A tragédia se inicia quando se instaura a consciência. Imersa no absurdo do cotidiano, a consciência tende a perceber o absurdo somente sob a forma prometeica do extraordinário, do espetáculo mediático.

● Consciente de sua tragédia, Sísifo, este "proletário dos deuses", sabe-se "impotente e revoltado", mas não tem meios de converter sua revolta em ação. Um proletário sem as armas da luta de classes.

● Semelhante a Sísifo, "o operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas", mas o absurdo de seu destino é menor que o de Sísifo, porque lhe falta a consciência da tragédia, a consciência de que a tragédia maior é aquela que nunca se torna consciente.

● O que o Império do Norte perpetrou contra o Povo venezuelano e nos chega como espetáculo mediático do jornalismo-lixo corporativo oculta a tragédia cotidiana que o sistema do capital impõe diariamente à classe trabalhadora, inclusive a que vive sob as cercas do Império.

● De Hegel a Marx, e sob os olhos do Sísifo de Camus, o que falta é a consciência proletária da tragédia, da tragédia como tragédia, da tragédia como farsa e da tragédia como escárnio.

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*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas. Em 04 de janeiro de 2026.

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