O desvario ilimitado de Donald Trump
- Professor Seráfico

- há 2 dias
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“A questão é simples e incômoda: até onde vai esse roteiro — e o que os países do Hemisfério farão, de forma concreta, para não serem o próximo capítulo?”
Alfredo Lopes - BrasilAmazoniaAgora*
A captura de Nicolás Maduro, narrada como feito militar e celebrada sob a lógica do petróleo e da tutela, expõe um método: a política externa que normaliza a força, banaliza a soberania e transforma países em “ativos” sob administração. Se esse roteiro prosperar, o Hemisfério entra numa era de coerção permanente — com tarifas, ameaças territoriais e “interinatos” moldados pela conveniência do poder.
A força como linguagem
Há fatos que são graves pelo que acontecem — e outros que são ainda mais graves pelo que inauguram. A operação que retirou o ditador Nicolás Maduro de seu território, sob a justificativa de acusações criminais e com descrição pública de “captura” por atores estatais estrangeiros, não se limita ao destino de um homem: ela rebaixa o direito internacional ao papel de adereço.
Quando a superpotência passa a tratar a excepcionalidade como rotina, a pergunta deixa de ser “por que fizeram?” e vira “com que frequência farão?”. Porque o ponto não é apenas o alvo — é o método: criminaliza-se, militariza-se, executa-se; e depois convida-se o mundo a discutir o “depois”, como se o “durante” fosse irrelevante.
O desvario começa exatamente aí: quando a força deixa de ser último recurso e vira primeira gramática. Quando a soberania vira detalhe, e o precedente vira plano.
Petróleo e tutela
O traço mais revelador do episódio é aquilo que não aparece no centro da narrativa: “democracia”, “instituições”, “eleições”, “liberdades”. O eixo, ao contrário, torna-se material: petróleo, administração, controle, reorganização.
A palavra-chave é tutela. Não importa como ela se disfarce — “transição”, “administração temporária”, “estabilização” —, o efeito simbólico é o mesmo: um país deixa de ser visto como sociedade política e passa a ser tratado como território administrável, com ativos reordenados por decisão externa.
Esse é o salto perigoso do século XXI: o protetorado não precisa mais de bandeira fincada; basta a retórica de “governar provisoriamente” e o comando sobre fluxos vitais (energia, sanções, comércio). É colonização em linguagem de gestão. É domínio travestido de “solução”.
O mapa do apetite e o laboratório das tarifas
A captura venezuelana dialoga com outras “gravatas” recentes — Canadá, Groenlândia, Canal do Panamá — porque todas orbitam um mesmo impulso: a geografia convertida em propriedade desejável. Territórios estratégicos, rotas logísticas e recursos naturais e minerais deixam de ser temas diplomáticos e passam a ser peças de pressão.
E, quando a coerção militar se combina à coerção econômica, a arquitetura fica completa. O “tarifaço” de agosto de 2025, no caso brasileiro, foi um ensaio didático de como tarifas podem funcionar menos como política comercial e mais como instrumento de disciplinamento: um mecanismo capaz de premiar alinhados e punir divergentes, ao sabor de humores políticos.
O paradoxo é que esse tipo de poder não busca estabilidade — busca obediência. E obediência não produz parceria: produz volatilidade, ressentimento e corrida por alternativas. A relação Brasil–Estados Unidos, submetida a esse pêndulo, tende a oscilar entre pragmatismo e sobressalto. E sobressalto é o nome elegante de insegurança.
A pergunta que fica
Se um país pode ser “administrado” por outro após uma operação de captura; se territórios podem ser tratados como “necessidades” estratégicas; se tarifas viram chicote político; então estamos diante de uma mudança de era: o poder se apresentando como direito, e a riqueza como destino.
O Brasil, a América do Sul e o mundo não podem responder apenas com indignação episódica. Precisam responder com método: diversificação econômica, blindagem institucional, coordenação regional, e uma diplomacia que recuse a normalização do precedente ou a banalização do mandonismo.
A questão é simples e incômoda: até onde vai esse roteiro — e o que os países do Hemisfério farão, de forma concreta, para não serem o próximo capítulo?
(*) Alfredo é editor geral do portal BrasilAmazoniaAgora

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