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FILOSOFIA E DIALÉTICA DO MAL: OU DO ANTIEVANGELHO DA EXTREMA DIREITA

A indignação é um começo. Uma maneira de se levantar e de entrar em ação. É preciso indignar-se, insurgir-se e só depois ver no que dá. É preciso indignar-se apaixonadamente, antes mesmo de

descobrir as razões dessa paixão (Daniel Bensaïd).


01. A extrema direita, vassala e aliada ao Império, está em guerra

contra o Brasil. Essa guerra de muitas frentes recorre a várias formas de

fraudar o real e de produzir, por meio da dissonância cognitiva, mundos

paralelos em que se refugiam os inimigos do pensamento, muitos

travestidos do não menos dissonante patriotismo por país estranho. Figuras

tristes que habitam as cavernas da ignorância, onde vivem aprisionados,

muitos, inclusive, de forma voluntária. Essa gente mitificada, oriunda de

todas as classes sociais, configura bem o lumpesinato, conceito de que

Marx se utiliza para identificar “o lixo de todas as classes”, que no Brasil

encontrou sua acabada forma política e religiosa na extrema direita.

02. No Brasil e fora de suas fronteiras, parece que o mundo (do

ser natural e do ser social) entrou em estado de ebulição. Colapso ambiental

e barbárie social, sob as forças da mão invisível (sempre suja de sangue) do

capital sem controle, que a tudo controla, e se fez religião universal e

última da humanidade. Hegel, em seu otimismo no poder da razão,

imaginava que esse reinado definitivo encontraria no cristianismo sua

forma suprema. Mas outro foi o devir da história, e hoje, nesse primeiro

quarto do século XXI, é o sistema do capital e não o cristianismo, como

prefigurava Hegel, o verdadeiro palco teleológico da razão religiosa. Do

local ao global, com ou sem dinheiro, somos todos fiéis monetários dessa

religião venal.

03. Sob a força venal da revelação do Novíssimo Testamento,

cuja formatação canônica foi estabelecida pelo ultraneoliberalismo

econômico, borrou-se a fronteira entre religião e capitalismo. É o reverso

da tese spinozista do Deus sive Natura. Se para o autor da Ética

demonstrada de forma geométrica dizer Deus implica dizer Natureza, para

a gramática do Novíssimo Testamento, quem afirma o Capital afirma

igualmente a Religião. O rito monetário é universal. A todos unifica no

mesmo culto, pouco importam os templos e seu estilo arquitetônico.

04. Rompeu-se a dicotomia (falsa dicotomia) não prevista pelo

racionalismo cartesiano. Em texto inacabado, Walter Benjamin já

discernira a equivalência entre capitalismo e religião. O mundo vive sob A

Nova Ordem do Novíssimo Testamento Ultraneoliberal, que logrou de

forma prática promover entre todas as religiões a integração que o Concilio

Vaticano II (1962-1965) havia projetado (mas destinada ao fracasso)

apenas entre as denominações cristãs, haja vista o Decreto “Unitatis

Redintegratio” sobre o ecumenismo. O que o Capital une nem Deus pode

dividir. Somos todos universalmente incluídos na mesma confissão

religiosa. O que muda é a forma de inclusão e de usufruto das promessas.

Aos ricos, o direito ao paraíso na terra. Aos pobres, resta a promessa da

vida após a morte, porque vida já não têm antes da morte.

05. A imaginária batalha (ou guerra) espiritual, arma utilizada

pela extrema direita para desviar a classe trabalhadora do foco dos

dilaceramentos reais, não pode prescindir de ancoragem material, porque

para o senso comum o mal precisa e deve ser personificado. E antes que me

acusem de aporofobia (aversão aos pobres) afirmo que o senso comum

atravessa todas as classes sociais, inclusive de gente com título de pós-

doutorado. Vem da cristandade medieval a base ideológica para essa

materialização do mal, ao iconografar de forma tremenda e luminosa

imagens de satanás, do tridente, do fogo do inferno, das bruxas, que até

hoje aterrorizam corações e mentes. A pedagogia do medo e da ignorância

sempre foi exitosa. Num universo em que a maioria da população era

analfabeta seria inútil falar do mal com especulações metafísicas ou

teológicas.

06. Como explicar em lições didáticas ou por imagens o

argumento ontológico de Santo Anselmo ou as cinco vias de Aquino

(referenciadas no princípio aristotélico da causalidade) para provar a

existência de Deus num mundo da mais degradada desigualdade social

como era o mundo dos pobres da cristandade medieval?  Para o senso

comum ou mundo da opinião (doxa, para os gregos) o mal tem que ser

palpável, tocável. Mesmo com uma formação teológica rasa a extrema

direita brasileira sabe disse. Por isso, o mal deve adquirir plasticidade, seja

na figura de Lula, de Alexandre de Morais, dos ministros do STF, ou de

qualquer agente opositora ou opositor ao seu projeto político de poder.

07. Para um povo, como o brasileiro, em grande parte privado do

direito à educação e, por isso, intocado pelas mediações da razão iluminista

– que contraditoriamente também serve da base para a instrumentação

ideológica (ver, por exemplo, O iluminismo como mistificação das massas,

de Adorno) –, em que os conceitos que regem a vida social têm profunda

base religiosa, nada mais funcional ao processo de manipulação cognitiva

operado pela extrema direita do que o recurso ao misticismo e aos mistérios

não tão misteriosos do complexo universo da religião. Como seriam

necessários, nesses tempos de retração cognitiva e deliberada política da

ignorância, recuperar os Círculos de Cultura do Brasil dos anos 1960, ao

tempo do projeto de alfabetização política criado por nosso maior

educador, Paulo Freire.

________________________________________________________________________________

*Professor de Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA-Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Em Manaus, AM, agosto de 2025.

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