FILOSOFIA E DIALÉTICA DO MAL: OU DO ANTIEVANGELHO DA EXTREMA DIREITA
- Professor Seráfico

- 17 de ago.
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A indignação é um começo. Uma maneira de se levantar e de entrar em ação. É preciso indignar-se, insurgir-se e só depois ver no que dá. É preciso indignar-se apaixonadamente, antes mesmo de
descobrir as razões dessa paixão (Daniel Bensaïd).
01. A extrema direita, vassala e aliada ao Império, está em guerra
contra o Brasil. Essa guerra de muitas frentes recorre a várias formas de
fraudar o real e de produzir, por meio da dissonância cognitiva, mundos
paralelos em que se refugiam os inimigos do pensamento, muitos
travestidos do não menos dissonante patriotismo por país estranho. Figuras
tristes que habitam as cavernas da ignorância, onde vivem aprisionados,
muitos, inclusive, de forma voluntária. Essa gente mitificada, oriunda de
todas as classes sociais, configura bem o lumpesinato, conceito de que
Marx se utiliza para identificar “o lixo de todas as classes”, que no Brasil
encontrou sua acabada forma política e religiosa na extrema direita.
02. No Brasil e fora de suas fronteiras, parece que o mundo (do
ser natural e do ser social) entrou em estado de ebulição. Colapso ambiental
e barbárie social, sob as forças da mão invisível (sempre suja de sangue) do
capital sem controle, que a tudo controla, e se fez religião universal e
última da humanidade. Hegel, em seu otimismo no poder da razão,
imaginava que esse reinado definitivo encontraria no cristianismo sua
forma suprema. Mas outro foi o devir da história, e hoje, nesse primeiro
quarto do século XXI, é o sistema do capital e não o cristianismo, como
prefigurava Hegel, o verdadeiro palco teleológico da razão religiosa. Do
local ao global, com ou sem dinheiro, somos todos fiéis monetários dessa
religião venal.
03. Sob a força venal da revelação do Novíssimo Testamento,
cuja formatação canônica foi estabelecida pelo ultraneoliberalismo
econômico, borrou-se a fronteira entre religião e capitalismo. É o reverso
da tese spinozista do Deus sive Natura. Se para o autor da Ética
demonstrada de forma geométrica dizer Deus implica dizer Natureza, para
a gramática do Novíssimo Testamento, quem afirma o Capital afirma
igualmente a Religião. O rito monetário é universal. A todos unifica no
mesmo culto, pouco importam os templos e seu estilo arquitetônico.
04. Rompeu-se a dicotomia (falsa dicotomia) não prevista pelo
racionalismo cartesiano. Em texto inacabado, Walter Benjamin já
discernira a equivalência entre capitalismo e religião. O mundo vive sob A
Nova Ordem do Novíssimo Testamento Ultraneoliberal, que logrou de
forma prática promover entre todas as religiões a integração que o Concilio
Vaticano II (1962-1965) havia projetado (mas destinada ao fracasso)
apenas entre as denominações cristãs, haja vista o Decreto “Unitatis
Redintegratio” sobre o ecumenismo. O que o Capital une nem Deus pode
dividir. Somos todos universalmente incluídos na mesma confissão
religiosa. O que muda é a forma de inclusão e de usufruto das promessas.
Aos ricos, o direito ao paraíso na terra. Aos pobres, resta a promessa da
vida após a morte, porque vida já não têm antes da morte.
05. A imaginária batalha (ou guerra) espiritual, arma utilizada
pela extrema direita para desviar a classe trabalhadora do foco dos
dilaceramentos reais, não pode prescindir de ancoragem material, porque
para o senso comum o mal precisa e deve ser personificado. E antes que me
acusem de aporofobia (aversão aos pobres) afirmo que o senso comum
atravessa todas as classes sociais, inclusive de gente com título de pós-
doutorado. Vem da cristandade medieval a base ideológica para essa
materialização do mal, ao iconografar de forma tremenda e luminosa
imagens de satanás, do tridente, do fogo do inferno, das bruxas, que até
hoje aterrorizam corações e mentes. A pedagogia do medo e da ignorância
sempre foi exitosa. Num universo em que a maioria da população era
analfabeta seria inútil falar do mal com especulações metafísicas ou
teológicas.
06. Como explicar em lições didáticas ou por imagens o
argumento ontológico de Santo Anselmo ou as cinco vias de Aquino
(referenciadas no princípio aristotélico da causalidade) para provar a
existência de Deus num mundo da mais degradada desigualdade social
como era o mundo dos pobres da cristandade medieval? Para o senso
comum ou mundo da opinião (doxa, para os gregos) o mal tem que ser
palpável, tocável. Mesmo com uma formação teológica rasa a extrema
direita brasileira sabe disse. Por isso, o mal deve adquirir plasticidade, seja
na figura de Lula, de Alexandre de Morais, dos ministros do STF, ou de
qualquer agente opositora ou opositor ao seu projeto político de poder.
07. Para um povo, como o brasileiro, em grande parte privado do
direito à educação e, por isso, intocado pelas mediações da razão iluminista
– que contraditoriamente também serve da base para a instrumentação
ideológica (ver, por exemplo, O iluminismo como mistificação das massas,
de Adorno) –, em que os conceitos que regem a vida social têm profunda
base religiosa, nada mais funcional ao processo de manipulação cognitiva
operado pela extrema direita do que o recurso ao misticismo e aos mistérios
não tão misteriosos do complexo universo da religião. Como seriam
necessários, nesses tempos de retração cognitiva e deliberada política da
ignorância, recuperar os Círculos de Cultura do Brasil dos anos 1960, ao
tempo do projeto de alfabetização política criado por nosso maior
educador, Paulo Freire.
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*Professor de Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA-Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Em Manaus, AM, agosto de 2025.

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