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Eles passarão

Surpreendem-me o modo e a celeridade com que avança a construção do viaduto no cruzamento das Avenidas Brasil e Coronel Jorge Teixeira. Creio unânime a previsão de que os moradores da zona oeste de Manaus sofreríamos restrições impostas pelas obras. No mínimo, redução na velocidade do fluxo de veículos, se não frequentes engarrafamentos, seriam registrados na área afetada. Mais que isso, era previsível o aumento no número de acidentes envolvendo condutores de veículos automotores, agravados pela quantidade de motocicletas em circulação. As obras, como de costume, correriam sob a lerdeza conhecida. Enfim, esperou-se o caos, que felizmente não veio. Ao contrário, desta vez os técnicos e as autoridades municipais conseguiram gerar alternativas de trânsito que reduziram significativamente todos os entraves e problemas tão presentes em qualquer intervenção nas ruas e logradouros públicos. Chama a atenção dos que passam pelo canteiro de obras, a velocidade com que os serviços vêm sendo executados. Passados menos de 6 meses desde seu início, o viaduto já tem praticamente fixadas as grandes colunas de sustentação da pista de rolamento, sem que o tráfego seja marcado por expressivo prejuízo, seja em termos de fluidez no tráfego de veículos, seja por eventuais riscos de acidente. Maior surpresa, porém, está na pretensão do ex-Prefeito, ao atribuir o nome oficial do novo viaduto. Tanto quanto se sabe, a denominação de quaisquer edificações ou logradouros públicos deveria ser decisão de audiência pública ou, no mínimo, ato da Câmara dos Vereadores, onde têm assento os representantes da população. Ademais, são desconhecidas as supostas ações benemerentes praticadas pelo empresário escolhido, que de alguma forma tenha trazido benefícios à coletividade. Até onde se sabe, trata-se de cidadão dedicado a negócios empresariais, como a exploração de porto e instalações portuárias sediados na capital amazonense. Estarei enganado? Ainda que o esteja, não custaria lembrar que outros nomes poderiam com exclusividade constar da placa de identificação do viaduto. Um deles, o que agora sugiro para nomear a obra, é Armando Lucena. Motorista sempre dedicado à militância pelas causas populares, o taxista defendeu não apenas sua classe profissional. Era múltiplo seu engajamento, inclusive em projetos como o Jaraqui, iniciativa de professores da UFAM, como Ademir Ramos e Fred Arruda, dentre tantos outros. Por isso, pela forma digna como viveu e como líder dos motoristas, ele permanece na memória de seus sucessores, amigos e admiradores, Lucena não passou. Justo, pois, chama-lo por apelido que o acompanhou durante seus mais de 80 anos (1921-2007), o Persistente. Para eterniza-lo, basta dar ao viaduto que une duas das mais importantes avenidas de Manaus, o nome dele. Por isso, o líder trabalhador morto permanece. Outros passarão, não Armando Lucena!

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O artigo abaixo, publicado em A Crítica, 11-12-2007, é texto integrado ao livro Nênias modernas, Editora Paka-Tatu, Belém-PA, 2024, p.37. Ei-lo:


Sancho Pança e Quixote

                        José Seráfico

 

Dos maiores gênios da literatura universal, Miguel de Cervantes legou à humanidade uma das melhores observações sobre o ser humano. A leitura de seu imortal O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha faz-nos aprender quão díspares podem ser as interpretações de um mesmo fato, dependendo de quem a oferece. No cavaleiro da triste figura o escritor espanhol coloca as virtudes dos que sabem lutar pela boa causa e disso não se envergonham. No seu fiel escudeiro, Sancho Pança, estão retratados pragmatismo e limitada objetividade. Se o primeiro enfrenta inimigos em que ele mesmo transforma os moinhos de vento, o outro reduz tudo à simploriedade dos que preferem o sobreviver ao viver. Um e outro, contudo, permanecem vivos, a despeito da desumanização da sociedade e da bem divulgada ideologia dos pragmáticos. Para estes, o sonho não acabou, porque jamais existiu. Para os outros, que fazem do viver um constante exercício de solidariedade e esperança, o sonho se torna tão necessário quanto o oxigênio. Assim, a vida dos muitos quixotes que, felizmente, ainda sobrevivem à avassaladora mediocrização da vida humana, nem por aparentar-se em vias de extinção, desapareceu da face da Terra. Por isso que a perda de um sonhador e, mais que isso, uma pessoa que soube sonhar e fazer da realização de seus sonhos a razão maior de sua vida, deixa irrecusável sentimento de perda. É esse sentimento que todos os homens e mulheres desta Manaus tão pobre de sonhos sofrem, agora que Armando Lucena nos deixa. Poucos, como ele, são capazes de manter-se coerentes com aquilo em que dizem acreditar. Quase nenhum, como ele, opta por manter-se combatente, quando abandonar as armas (o pensamento, a voz e a pena) poderia render recompensas dignas de Sancho Pança. Qual um Quixote do Novo Mundo, o ex-petroleiro e ex-taxista, mas até o fim solidário Armando Lucena deixa exemplo de dignidade e esperança que raríssimos se esforçam por legar aos pósteros. Os que o conheceram – e eu tive esse privilégio – podem dar seu testemunho, se o medo de parecerem ridículos não os fizer simpáticos ao escudeiro, não ao cavaleiro de Cervantes.

(Para saber mais sobre Armando Lucena, cliquem no link https://jmartinsrocha.blogspot.com/2012/08/armando-lucena-o-persistente.html).


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