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Desonra e traição

Engana-se quem pensa esgotado o paiol de bombas políticas alimentado e operado pela direita. Também incorrem em equívoco os que concebem a união nacional como a tolerância às praticas criminosas dos que perdem eleições e tentam fragilizar a hesitante democracia em andamento. Hoje, a tolerância que se transformou em cumplicidade instalou-se e se mantém - forte, é necessário dizer - no Poder Legislativo. O corporativismo se agrava, produzindo cenas, pronunciamentos e - o que é ainda mais grave - leis destinadas a proteger, não o legítimo exercício do mandato parlamentar. Enquanto o País enfrenta as consequências da ação criminosa de um dos membros daquele poder, dedica-se a Câmara dos Deputados à inglória tarefa de dar-lhe proteção que em nada aproveita o Brasil e sua população. Mesmo quando o Poder Judiciário resiste à retaliação de governante de país estrangeiro, os supostos representantes do povo, por sua maioria, tratam de neutralizar os esforços pela manutenção da soberania. Esta, entendida como prerrogativa de quem se percebe como imperador do Planeta. Por isso, a Constituição é rasgada com frequência, como se fosse de suas inspiração e objetivo dar guarida e oferecer habeas-corpus permanente a criminosos comuns, ainda quando a serviço de interesses avessos e alheios à maioria da população. Em um país onde os trabalhadores têm gradativamente reduzidos os direitos que os protegem faz mais de oito décadas, estabelecem-se novas, ilegítimas e perversas condições de desigualdade. De tal forma, e com tanto desdém pelo interesse público, os deputados criam mais um privilégio, porque de outra coisa não trata a decisão de justificar as faltas de um parlamentar que sequer tem residência no Brasil. Nem está ausente, dentre os pretextos para mais essa manifestação de absoluto desprezo pela sociedade, a opinião pública e os trabalhadores o discurso do ódio tantas vezes tolerado. É certo que, consumada pelo Poder Legislativo, a PEC da Blindagem (da Bandidagem, diz boa parte dos comentaristas e a minoria parlamentar) acabará nas barras do tribunal. O caráter inconstitucional e os propósitos resultantes dele deverão ser vigorosamente repudiados, como o foi a tentativa criminosa de responder às urnas com um golpe de estado. Antes disso, poderá o Presidente da República, porque assim o garante a Constituição Federal, vetar PEC que entretém a oposição, quando um de seus membros, mesmo afastado do território onde seu mandato foi conquistado, dedica-se ao malfadado estímulo a ações lesivas ao povo brasileiro. Os da esquerda, excluída pequeníssima parcela dos que apenas invejam a criatividade malsã e característica dos que constroem, defendem e justificam a desigualdade, haverá de opor-se, cada dia mais tenazmente, contra essa e tantas outras tentativas de poluir o já apodrecido ambiente político. A resposta da esquerda, como se tem observado, deve vir das urnas. Todo cidadão envergonhado e arrependido - porque os há, às dezenas de milhões - dispõe do voto, sabe que é das eleições e dos candidatos escolhidos que poderá vir a discussão serena, objetiva e benéfica ao povo. É sabido quanto há, no Parlamento e nas penitenciárias, autores de crimes da mais variada ordem e natureza. Também é reconhecido o papel que o Poder Judiciário tem feito, revelado e homenageado pela maioria das nações, sempre que conduz o devido processo legal. Algo inédito na nossa História, a condenação de réus de alto coturno pode servir de exemplo aos representantes ditos populares. O contrário, como a PEC protetora de marginais o atesta, apenas vinca a face da Câmara com as rugas da desonra e da traição.

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