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Camaleão, mas dos grandes

A mais recente atuação de Gilberto Kassab no processo de escolha do candidato que se oporá a Lula, na próxima eleição presidencial, reforça a fama de que o político paulista desfruta. Dotado de raro senso de oportunidade, o Presidente do PDS começa a costurar o traje que não será vestido pelo zero-um, uma espécie de herdeiro presumível do espólio e ruína. À percepção aguçada de Kassab soma-se a intimidade que ele tem com o poder (governo paulista, em princípio e sobretudo) e a Faria Lima. Esta, tendo sob sua direta supervisão as diversas bancadas (partidárias ou de interesses) instaladas no Congresso, emite seus sinais e desejos, não com a clareza e transparência que cobra dos agentes públicos. Sequer, torna sua ação e seus objetivos visíveis a olho nu. É preciso muita argúcia e a desmontagem de um bloqueio informacional cuidadosamente mantido, para entender o que se passa nos melhoras gabinetes da avenida que constitui uma das mais cruas metáforas de nosso tempo. Gilberto Kassab sabe disso. O oportunismo que o caracteriza parece identificar com clareza e quase certeza o momento de desfechar o golpe. Ajuda-o nesse aspecto temporal e importante do processo, o faro próprio aos cães velhos. Não é outra a razão pela qual o atual Secretário de Estado para as Relações Institucionais de São Paulo só agora sai da toca e põe no mesmo balaio os governadores do Paraná, Goiás e Rio Grande do Sul. Aos quais, podemos apostar, logo se juntarão outros, mesmo o capiau Zema, de Minas Gerais. As dificuldades enfrentadas pelo candidato a herdeiro do desejado trono que se despedaça pesam no juízo de Kassab, tanto quanto os apetites de que são portadores Zema, Caiado, Leite e Ratinho. Pior para Lula, quando tem suas próprias dificuldades, se não de caráter pessoal, pela proximidade com os envolvidos no escândalo do banco Master. Hábil, tendo números para mostrar, desfrutando do respeito e da deferência de importantes líderes internacionais, o atual Presidente da República não consegue, todavia, remover os percalços dificultam a pretensão de reeleger-se. A política, tendo íntima e irremovível vinculação à vontade de seres humanos, raramente se orienta por números, mais plausíveis e ostensivos eles se mostrem. Votos e sonhos têm mais a ver com o processo eleitoral, que o cenário integrado na cabeça do eleitor, sobretudo quando as narrativas levam ao esquecimento do que já foi conquistado. As dissensões na direita, ao invés de aumentarem a probabilidade da reeleição, podem acabar por levar ao fortalecimento de grupos adversários, sempre na expectativa de um segundo turno. Neste, feitas as contas na ponta do lápis, e avaliada a probabilidade e a quantidade de perdas, os números falarão mais alto. Kassab sabe disso e não terá nenhum constrangimento em usar seus próprios argumentos, como os terá usado, ao participar dos governos Dilma, Temer e Tarcísio. Chama-lo camaleão é pouco.

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