Calote na Ciência Natália Pasternak
- Professor Seráfico

- 13 de dez. de 2022
- 3 min de leitura
Destruir a pós-graduação é destruir a pesquisa científica do país. Não há laboratório ou projeto de pesquisa que funcione sem o pós-graduando. Imagine: você acaba de se formar na faculdade, e está procurando o primeiro emprego. Uma organização ou empresa lhe oferece um salário mínimo e faz as seguintes exigências: exclusividade absoluta; não pode aceitar nada por fora. Se fizer um bico e alguém lhe denunciar, você pode ser obrigado a devolver tudo o que já recebeu. Não há direitos trabalhistas. Nada de FGTS, décimo terceiro, hora extra. Seu tempo de trabalho não conta para aposentadoria. E, finalmente, se pedir para sair, vai ter que devolver todos os salários recebidos..
Se essas condições lhe parecem chocantes, saiba que assim são muitos dos contratos de bolsas de estudo de pós-graduação no Brasil. Diversos profissionais, jovens pesquisadores que trabalham nas universidades brasileiras e institutos de pesquisa, aceitaram esses contratos de quase-escravidão, seja pelo amor à ciência, seja pela perspectiva de receber um título (mestre, doutor) que quem sabe, talvez, um dia, abra portas melhores no mercado de trabalho.Agora imagine que, após aceitar estas condições desumanas até para os padrões predatórios do mercado de trabalho brasileiro (lembre-se de que soldado da PM também é proibido de fazer bico, mas quando faz quase nunca é punido, e que mesmo trabalhador “PJ” precarizado pode trocar de emprego sem sofrer sanções), para assumir uma atividade que nem é vista como trabalho “de verdade” —quem, durante a pós-graduação não escutou a frase “mas você não trabalha, só estuda?” — seu empregador apareça com o seguinte aviso: este mês eu não vou pagar seu salário. Lembre-se: além de não ter a quem recorrer, você está proibido de ter outra fonte de renda, e se decidir “pedir demissão”, precisa devolver tudo que já recebeu.Foi exatamente por este susto que os jovens cientistas brasileiros passaram na semana passada, quando a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) anunciou que não pagaria as bolsas dos estudantes de mestrado e doutorado. Não é a primeira vez que a verba para ciência e, principalmente, para os salários dos pós-graduandos, é cortada para o governo federal fechar as contas. Em abril de 2019, passamos pelo mesmo problema. Não se trata apenas de falta de organização e planejamento. É descaso e desrespeito mesmo, com uma área que tem pouco poder de mobilização, pouco apoio da sociedade, uma decisão tomada por pessoas que não têm ideia das consequências deste desmonte.Destruir a pós-graduação é destruir a pesquisa científica do país. Não existe laboratório ou projeto de pesquisa científica que funcione sem o pós-graduando. São estes jovens pesquisadores os responsáveis pelo trabalho pesado, que gera conhecimento e tecnologia. Sem eles, não tem vacina, não tem medicamento. Também não tem desenvolvimento de agricultura ou energia limpa. Não tem ciência.Neste último episódio, em particular, a Associação Nacional dos Pós-Graduandos agiu rapidamente, entrou com um mandado de segurança junto ao Supremo Tribunal Federal, e conseguiu resolver a situação. Mas afastar a emergência não resolve o problema, e não impede que ele se repita. O sistema de pós-graduação no Brasil é injusto, frágil e excludente: só quem pode se sentir confortável nessas condições é quem tem dinheiro da família para suplementar a bolsa.É preciso, no mínimo, instituir direitos trabalhistas, fazer contar o tempo de aposentadoria, retirar a regra de exclusividade. Não são mudanças difíceis de implementar. Reajustar o salário também não: basta admitir que ciência é prioridade, em detrimento talvez do suprimento de Viagra do Exército? Ou fazemos isso, e valorizamos a ciência brasileira, ou não poderemos reclamar quando o último pós-graduando sair do país, decretando o fim da ciência brasileira.

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