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BERTOLT BRECHT: A FORÇA POLÍTICO-PEDAGÓGICA DO TEATRO DIALÉTICO


 

José Alcimar de Oliveira*

 

Devemos aceitar que matem nossos camaradas? Lutem conosco numa união antifascista! E não digam nunca: isso é natural, (porque já passou da hora) de instituir imediatamente um grande costume: o costume de refletir novamente diante de cada situação nova (Bertolt Brecht).

 

 

 

               01. Há quatro anos a Professora Conceição Derzi, do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas fez a transição da imanência, lugar da contradição e do contingente, para o não-lugar (utopia) da almejada transcendência. Neste mesmo 10 de fevereiro, há 128 anos, Bertolt Brecht chegou ao mundo da imanência para imprimir pedagogia dialética à história do teatro e causar incômodo à boa consciência do espírito burguês. Se algo há em comum nessas duas existências (a de Conceição Derzi e a de Bertolt Brecht) é a recusa aos ditos bons modos e ao bem instalado refinamento, marcas que em larga medida definem a vida contente e parasitária da burguesia, notadamente aquela de extração financista. Como permanece atual a dúvida brechtiana sobre a diferença entre assaltar e fundar um banco. A diferença talvez é que a fundação de um banco caracteriza de alguma forma a legalização de uma tipologia de assalto sob as bênçãos do Estado burguês.   

               02. Se no lugar celeste houver espaço reservado às almas irredentas e inquietas, à fumaça dos charutos de Bertolt Brecht e dos cigarros de Paulo Monte, juntar-se-ão também as tragadas falantes da nossa generosa e

irreverente Conceição Derzi. Eles e ela nos deixam cada vez mais carentes

da necessária contraordem. Ao combinar as duas datas, sob a épica direção

da arte de Brecht e à distância da mistificação do teatro dramoso, Paulão e

Conceição já prenunciam uma reviravolta filosófica e comunicativa na

imobilidade dos palcos celestiais. 

               03. Paulão e Conceição sempre foram vozes dissonantes, pouco

ouvidas, quando não objeto de desdém no interior da Universidade Federal

do Amazonas, que não é exceção à regra que normatiza e naturaliza o

produtivismo adoecedor da universidade brasileira, tanto pública quanto

privada. Militante irredenta, direta, polêmica e verdadeira em seu falar e

agir, Conceição Derzi deixa entre nós a marca de uma existência que nunca

se furtou a tomar posição diante dos debates e desafios do tempo histórico.

Quem a conheceu, conheceu uma mulher de luta e avessa à neutralidade. 

               04. Esta data, 10 de fevereiro, faz a mediação entre 1898, ano do

nascimento de Brecht, e 2022, ano em que Conceição partiu, seguramente

contra sua vontade e sem nosso consentimento, mas com algo de épico,

inclusive pela coincidência das datas, a do o nascimento do dramaturgo e a

da morte da educadora. Porque viveu e morreu com intensidade, sua memória permanecerá. O que é morno, como nos diz o livro do Apocalipse, é digno de vômito. Hostil a meias palavras, Conceição era destemida, resoluta e fazia da contradição o alimento heraclítico de sua luta classista e feminista.

                05. Por tudo isso e mais ela não escapará ao olhar afinado do

velho Brecht. Por força de profana intuição, imagino uma parceria épica

entre Paulo Monte e Conceição Derzi para convencer o maior dramaturgo

do século XX a escrever, com a potência reflexiva do distanciamento, a

grande peça do século XXI e, desde Manaus (agora vista do alto), jogar lux

in tenebris nesse Brasil que precisa resistir ao poder do atraso e evitar que o povo volte às sombras do fascismo requentado. Transfigurados pela poética libertária de Brecht, Paulo Monte e Conceição Derzi serão agora educadores épicos em tempos sombrios.

                06. É somente na ordem do tempo e com o povo, que tem fome de

pão e sobretudo sede de justiça, que podemos tecer o espaço da educação

popular. A justiça, nos diz Brecht, é o pão do povo. O teatro, já nos ensinou

ele, é uma arma filosófica, que potencializa a reflexão. Sim, é necessário

fustigar com arte e filosofia os artifícios dos dramas da sociopatia e

psicopatia burguesas. Contra a excitação doentia do teatro epidérmico,

prisioneiro que é da distração mistificadora e carente de estética, Brecht

propõe a criação artística do teatro dialético, protagonizado pela força épica e coletiva do povo.

                07. O teatro de Brecht, o mestre de A exceção e a regra, toma

distância da indigência ética do mundo burguês e afronta com as armas da

reflexão e das mediações do distanciamento a miséria axiológica em que

vive e se enreda a dramaturgia, sempre falsa, da representação burguesa da

vida. Como acertadamente define o filósofo itinerante Marcos José: “O Teatro Dialético de Brecht é um Método eminentemente Político-Pedagógico. Método do Distanciamento. O Teatro que reflete o Devir-Marxista”. Brecht não representa, se apresenta pleno de presença e isento dos ditos bons sentimentos e da má consciência da moral burguesa, sempre objeto da ira (e da mira) filosófica e comunicativa de Paulo Monte e

Conceição Derzi. Resta a certeza de que Paulo Monte, sob o olhar de

Brecht, recebeu Conceição Derzi com um abraço amazônico de alegria e

indignação.

_______________________________________________________________________________

 *José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e concluiu o mestrado e doutorado. É teólogo heterodoxo e sem cátedra, Segundo Vice-Presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru -AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana- CE). Em Manaus, AM, fevereiro de 2026.

 

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