As estrelas que faltam à nossa bandeira
- Professor Seráfico

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Em: 03 de Agosto de 2026
Geraldo Lopes de Souza Júnior
"Salve o lindo pendão da esperança, salve o símbolo augusto da paz."
(Trecho do Hino à Bandeira)
Caboco, uma bandeira nunca foi apenas um pedaço de pano colorido tremulando ao vento. Desde que o homem resolveu organizar exércitos, fundar cidades e criar nações, ela passou a cumprir uma missão muito simples: dizer quem somos. No campo de batalha, evitava que um soldado morresse defendendo o lado errado. Na paz, tornou-se a síntese de um povo. É por isso que as bandeiras são hasteadas em escolas, repartições públicas, competições esportivas e funerais de Estado. Elas carregam uma história inteira sem precisar pronunciar uma única palavra.
Nenhum povo escolhe sua bandeira por acaso. A França eternizou nela os ideais da Revolução; o Japão colocou o sol no centro de sua identidade; o Canadá escolheu a folha de bordo; a África do Sul redesenhou a sua para simbolizar o fim do apartheid e o nascimento de uma nova nação. As bandeiras sobrevivem aos governantes porque representam algo muito maior do que governos: representam a memória coletiva. É justamente por isso que toda bandeira merece ser levada a sério. Suas cores, suas formas, seus símbolos e até seus silêncios contam alguma coisa sobre aqueles que representa. Não existe traço inocente numa bandeira. Cada detalhe deveria responder à pergunta mais importante de todas: quem somos nós?
A bandeira do Amazonas responde dizendo que o branco simboliza a paz, o azul traduz a grandeza do nosso céu e dos nossos rios e o vermelho representa a coragem de um povo disposto a defender sua terra. Ou será o sangue derramado dos povos originários que aqui habitavam e foram dizimados pelo colonizador? As estrelas, por sua vez, representam os municípios amazonenses — primeiro foram vinte e cinco, agora serão sessenta e duas, acompanhando a configuração administrativa do Estado.
Tudo muito bonito. Só existe um pequeno detalhe: ela parece uma prima distante da bandeira dos Estados Unidos, a tal ponto que uma bandeira do Amazonas diante de uma escola indígena levou à divulgação de panfleto apócrifo, denunciando em 2024, que “os índios hasteiam bandeiras americanas, falam inglês e se aliaram aos gringos para retalhar a Amazônia”. Mais recentemente, o general Heleno, antes de ser condenado a 21 anos de prisão pelos crimes de organização criminosa e tentativa de golpe, repetiu a mesma bobagem.
Má cópia?
É claro que os historiadores explicarão, com toda razão, que isso aconteceu porque, em 1897, a jovem República brasileira olhava para o modelo norte-americano como um exemplo de federação. Não foi propriamente uma cópia; foi uma inspiração. Mas inspiração demais às vezes produz um resultado curioso. É como aquele sujeito que diz que apenas se inspirou no corte de cabelo do vizinho e acaba saindo do barbeiro parecendo irmão gêmeo dele.

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