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As elites se reconhecem no preconceito*

3 de set.
3 min de leitura

Quando a gente fala em elite pensa logo naquele povo cheio da grana, esnobe, metido a besta, que vive do pedigree ou da bolsa de grife comprada por mil salários mínimos.

Essa é a elite que domina pelo poder econômico e pela tradição. Mas o mundo está cheio de elites.

A prática desse estrato social e econômico encontra semelhança com a elite intelectual e cultural, por exemplo. Aquela gente que vive espreitando espaço nas academias científicas, nos partidos de esquerda, nos grupos de classe média e nas áreas mais diversas das artes e do conhecimento.

Para a elite econômica, não basta ter. É preciso que o outro não tenha. Ela vive da miséria alheia. Se regozija com isso. Gosta da humilhação.

Para a elite intelectual, aquela cheia de pavulagem, é preciso humilhar quem é do povo. Aí parte para o preconceito linguístico, para a discriminação de classe e para a desqualificação de tudo que é popular. Ela precisa se manter no degrau mais alto da inteligência, pensa.

Assim como a elite econômica, a elite intelectual não se contenta em saber, ela quer provar que o outro não sabe. É uma consciência e prática do colonizador.

Todas as almas de fora são pagãs.

Tenho visto isso o tempo todo.

As lideranças populares são párias para essa gente. São desqualificadas para poder mostrar que eles - aquela elite que se considera mais inteligente - possa se sentir superior.

Essa elite nunca leu ou se leu abandonou a ideia de intelectual orgânico do pensador italiano Antonio Gramsci. Ou acha que é possível defender a classe proletária sentada no posto de filósofo da república platônica.

Fico com os intelectuais da periferia, da sarjeta e da várzea. Nós sabemos quem somos.

Escrevo isso provocado pelo período eleitoral e pensando na dificuldade que a esquerda tem de disputar o poder no Amazonas. Aqui, houve um afastamento tremendo das bases populares, porque há uma elite viciada no jogo eleitoral sem povo. Tudo virou líquido e o discurso perdeu força ideológica e motivadora.

A classe trabalhadora não tem consciência de classe, é verdade. E nunca terá enquanto as lideranças populares forem combatidas pela pretensa elite intelectual. Essa divisão é produto do capitalismo e reproduzido, equivocadamente, por gente que se diz revolucionária ou combate a injustiça social.

Os intelectuais são trabalhadores e a divisão entre trabalho artesanal e intelectual deve ser abolida. ¹

É preciso que os intelectuais pequenos-burgueses, como conceituava Lênin, entendam que a classe proletária tem seus próprios intelectuais e esses são suas lideranças sindicais, partidárias, militantes das associações populares e de todo movimento social.

Deixem de leseira. A bandeira de luta do proletariado no país de maior desigualdade social do mundo é a qualidade de vida. Na fome, é a comida que conta e não o Manifesto Comunista.

É na luta contra a fome e a desigualdade social que está o espírito anticapitalista.

A luta por justiça social não é simbólica. Ela é real quando se manifesta por ações concretas. A solidariedade é concreta enquanto ação de classe. O hospital, a escola, a defesa do meio ambiente, da cultura, atender demandas populares são ações concretas da transformação social.

A luta por uma sociedade justa e solidária tem que ser real e não simbólica. É preciso acolher quem tem trabalho popular, quem vive nas periferias, no interior, nas favelas e morros.


*Lúcio Carril

Sociólogo

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