top of page

A pior pena

Atraído pelas palavras de um vereador entrevistado, tratei de ler a matéria, imediatamente. Afinal, é o mais jovem dos que chegaram à Câmara Municipal de Manaus, na sessão legislativa recém-iniciada. Fui levado à leitura, primeiro por manifestar meu aplauso à iniciativa do jornalista Julio Ventilari, cuja coluna traz a entrevista. Depois, porque sou desencantada testemunha do processo de deterioração por que vem passando muitos jovens que se anunciavam promissores. Não de qualquer promessa, mas daquelas que sugeririam vigoroso empenho na defesa de interesses menos egoísticos e com forte apelo social. Nem considerei a hipótese de estar em busca de uma finíssima agulha em um intrincado e volumoso palheiro. Quando se trata de apreciar a conduta do animal humano sempre será bom guardar reservas. Nesse campo, todo extremismo generalizador é perigoso. Da minha leitura, resultou saber do alegado engajamento do vereador em atividades que buscam dar atenção digna e dignificante aos portadores de autismo. Essa a informação mais importante, porque revela compromisso que o conteúdo da entrevista não permite dizer se é exclusivo. Porque seja a maior preocupação do vereador, pode-se logo identificar um ponto digno de menção e louvação. Se é exclusiva, essa preocupação limita muito as perspectivas do novel legislador municipal. Tantos são os problemas com que se há a sociedade em proveito da qual se espera a atuação dos representantes populares, que a percepção da floresta é exigida, para muito além do foco em uma só árvore. Isso acaba desembocando no oceano de discursos fluidos, no que concerne à consistência dos propósitos anunciados. O que basta para deixar a impressão de que se repete fenômeno tão frequente quanto indesejável: a novidade registrada na certidão de nascimento não corresponde ao momento, à sociedade e às carências que marcam a vida dos munícipes. O jovem edil não será o primeiro, mas não tardará a engordar a lista das promessas que nunca chegaram a bom termo. Não é mais possível admitir presente a frase bem-humorada de Millôr Fernandes, para quem a assistente social é a mulher generosa que o governo paga para ter pena da gente.

Posts recentes

Ver tudo
As pernas da mentira

Ora, vejam só! De onde veio o estímulo ao estupro e ao nascimento de crianças produzidas por um crime? Exatamente dos que dizem defender Deus, Pátria e Família. Observadas outras condutas típicas da e

 
 
 
Países baixos e gente(?) mais ainda

Vergonhoso, mais que tudo, é constatarmos a desfaçatez - para não dizer poisa pior - com que as elites brasileiras encaram o trabalho humano. Enquanto aqui parte dela, majoritária no Congresso, tenta

 
 
 
Passos em estrada minada

Desde a reunião de 22 de abril de 2019, dirigida pelo então Presidente da República, ficou transparente o objetivo maior da gestão presidencial. Proteger, favorecer e privilegiar a própria família ser

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page