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A implosão da mentira

“Mentiram-me.

Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente.

Mentem de corpo e alma completamente.

E mentem de maneira tão pungente

que acho que mentem sinceramente.

Mentem sobretudo impunemente.

Não mentem tristes,

alegremente mentem.

Mentem tão nacionalmente

que acho que mentindo história a fora

vão enganar a morte eternamente.

Mentem, mentem e calam

mas nas frases falam e desfilam de tal modo nuas

que mesmo o cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura,

mas não se chega à verdade pela mentira

nem à democracia pela ditadura.

Evidentemente crer que uma flor nasceu em Hiroshima

e em Auschwitz havia um circo permanentemente.

Mentem, mentem caricaturalmente,

mentem como a careca mente ao pente,

mentem como a dentadura mente ao dente

mentem como a carroça à besta em frente,

mentem como a doença ao doente,

mentem como o espelho transparente

mentem deslavadamente como nenhuma lavadeira mente ao ver a

nódoa sobre o rio

mentem com a cara limpa e na mão o sangue quente,

mentem ardentemente como doente nos seus instantes de febre,

mentem fabulosamente como o caçador que quer passar gato por

lebre

e nessa pilha de mentiras a caça é que caça o caçador

e assim cada qual mente indubitavelmente.

Mentem partidariamente,

mentem incrivelmente,

mentem tropicalmente,

mentem hereditariamente,

mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente

constroem um país de mentiras diariamente.” _____________________________________________________________ (*Affonso Romano de Sant’Anna, que nos deixou ontem).

*

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