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A força da mulher-mãe: depoimento de um filho

Comecei a conhecer as coisas do mundo muito cedo, ainda adolescente. É um momento terrível, que não teria volta. A partir dali a indignação dominou minha vida. O conhecimento das causas da aflição humana é implacável.

Mas esse conhecimento e percepção do mundo, aquilo que chamamos de consciência crítica, não me fez um ser humano melhor de um dia para o outro. Demorou para eu compreender que aquela descoberta deveria servir de instrumento para mudança do meu eu, que o mundo deveria começar a melhorar a partir de mim. Que eu deveria ser a primeira partícula transformadora.

Perdi muito tempo para reconhecer a força da minha mãe. Perdi muito tempo para compreender que aquela mulher precisava ser cuidada, abraçada e amada todos os dias, como ela fazia com seus quatro filhos menores.

Papai era carpinteiro e ganhava um salário de miséria trabalhando na Companhia de Aeroportos da Aeronáutica (Comara), onde se aposentou. Fim do mês, ele pegava a grana e jogava nas mãos da mamãe. E ela tinha que dar o jeito para fazer render. Fazia milagre, mas não conseguia multiplicar dinheiro.

Nos últimos dias do mês, a sub-alimentação era inevitável. Sentíamos isso no corpo. Ovos e farinha nos mantinham vivos, porém, ainda famintos. Mesmo quando tinha peixe cozido, para fazer render com o pirão, a reclamação das crianças estava presente.

Hoje, penso no sofrimento da minha mãe. Na angústia que a destroçava, sem poder chorar, demonstrar fraqueza, porque aí o desespero dos filhos seria pior. Ela brincava quando a gente perguntava o que iria comer: pastel de vento, respondia.

Mesmo adulto, não consegui retribuir o amor da minha mãe, tampouco herdei a força daquela mulher, cabocla do rio Madeira. Sinto não tê-la abraçado mais, ter estado mais com ela, ao seu lado. Ter dado a atenção que ela nos deu.

A consciência que construí desde cedo não me fez um ser de amor desde jovem. As mazelas da pobreza, sem o necessário para viver com dignidade, arranharam minha existência. Me tiraram o tempo de amar, porque quando se tem fome, o tempo é de pensar em comer e não no amor. A necessidade da existência física põe a alma de repouso.

Tenho boas lembranças da mulher que foi minha mãe.

Quando fomos morar num bairro sem eletricidade, em Manaus, ela contava histórias pra gente antes de dormir. Histórias de boto, do Curupira, do irmão dela que foi encantado pela mãe d'água durante um temporal e tantas outras das lendas amazônicas. Ela contava com a crença de uma mulher nascida na floresta.

Poxa, que pena que eu não dei mais amor pra minha mãe. Agora ela já se foi. Ficaram as boas lembranças e um sentimento forte e doloroso por hoje entender todo sofrimento que ela passou, sem reclamar, chorando sozinha dentro do quarto, lamentando não poder dar mais aos filhos.

Mãe, a senhora nos deu tudo, sim. Tudo que podia dar. Obrigado. Só mais uma coisa: também aprendi a amar com a força do seu amor. Tenha certeza, a senhora existe em mim.


Lúcio Carril

Sociólogo.

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