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A CRISE DA VERDADE

Não é de hoje que se tenta sepultar tudo que incomoda as estruturas dominantes. Em 1989, o filósofo nipo-estadunidense Francis Fukuyama sentenciou o fim da história, após a queda do muro de Berlim. Ou seja, de Heráclito a aqueles dias de convulsão, o que mantinha a história era um muro e as partes antagônicas que viviam nos lados opostos.

Antes dessa sentença adoidada do pensador neoconservador, surgiu, após a Segunda Guerra Mundial, a história da sociedade pós-moderna ou pós-modernidade, disparando contra as utopias e a ciência. A modernidade nem chegou ao seu voo pleno e alguns apressados acharam de entender que as novas tecnologias e as novas formas de consumo, de vida, etc., anunciavam o fim de um tempo que não tinha terminado.

O certo é que a história continua e as contradições originais da modernidade também.

Nessa onda de sepultamento da história que não acabou, surge no século XXI a pós-verdade.

Não se trata de um movimento cultural, intelectual ou social. É um movimento político que ameaça o conhecimento construído em séculos de existência das sociedades.

A tese da pós-verdade se sustenta na negação da verdade e não num movimento no sentido posterior à verdade. Tem ganhado campo na era da comunicação de massa instrumentalizada pela internet, redes sociais e outras mídias digitais. Sua base principal é a substituição dos fatos pelas narrativas.

Trata-se de manipulação da informação, negando aquilo que é real e criando uma versão emotiva e espetacular daquilo que interessa aos atores que dominam os meios de propagação. Não é uma mentira, é algo mais destruidor, distante do campo moral, mas totalmente sem ética e sentimento de responsabilidade pelos prejuízos que pode causar.

O negacionismo dos fatos e do real leva à criação de uma realidade paralela, distópica e delirante. A ciência deixa de existir como verdade e quem assume é a voz do pastor da igreja evangélica e do político que precisa impor sua narrativa para se eleger. Isso cria uma massa de indivíduos alienados, seguidores crédulos no que lhe foi imposto não como mentira, mas como negação da verdade.

Fake news, movimento contra vacinas, preconceito, a criação e divulgação de dados estatísticos falsos para sustentar versões fantasiosas são alguns dos adereços que decoram ações voltadas para alimentar crenças e emoções. O que era real já não importa. O conhecimento não importa mais. Um estado de transe parece tomar conta de quem recebe a mensagem e uma outra realidade é criada.

Nesse processo de criação do caos há embutido a negação de tudo que foi acumulado no processo de desenvolvimento do ser humano. A cultura, a ciência, o Estado laico, as religiões voltadas à espiritualização da fé, a política como meio para atender demandas populares, tudo isso passou a ser objeto de combate daquilo que é chamado de pós-verdade.

Do fim das utopias da pós-modernidade, chegamos ao século XXI com a ameaça real de um movimento que nega o real e manipula a realidade para destruir todo conhecimento acumulado pela humanidade. Com a supressão da verdade, a liberdade também vai embora.


Lúcio Carril

Sociólogo

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