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Vizinhança

O resultado das prévias na Argentina, talvez pela vizinhança, tem suscitado reflexões e indagações sobre suas consequências não apenas sobre a sociedade daquele país, mas também sobre a sociedade brasileira. É fácil admitir o fenômeno, que o processo de globalização torna provável. Neste caso, sem que a proximidade física entre as nações tenha peso expressivo no nível e qualidade das relações. A vizinhança, porém, torna maior o risco de - chamemos assim - contaminação. Mas, semelhante ao dilema sobre a precedência entre o ovo e a galinha, também se poderá suscitar a hipótese de o desastre direitista experimentado pelos brasileiros ter levado à Argentina à situação política em que se encontra. O que se tem sabido sobre Javier Milei não o faz essencialmente diferente de um de seus modelos, segundo a imprensa internacional. Ambos, diga-se para não perder a oportunidade, mais próximos da barra dos tribunais que dos gabinetes do poder. O ex-capitão e Trump, seu líder, para sermos mais claros. Pois bem, no segundo maior cliente comercial do Brasil, também foi cevado o monstro que ameaça com a extinção do estado argentino, pois esse é um dos postulados dos anarquistas, qualificação atribuída ao candidato da extrema direita argentina. Internamente, o resultado das eleições de agora começa a inquietar esse ente etéreo que tem nome e CNPJ mas simula inexistir na prática palpável, chamado mercado. Menos pelas sandices bem calculadas, a alimentação do discurso de Milei, que pelos riscos de alguma forma capazes de afetar seus bons negócios. Não tem ocorrido muito diferente em nenhum dos países em que a direita tenha governado. Desde Hitler na Alemanha, até aqui, será exceção qualquer informação relativa ao sucesso dos direitistas, ainda quando - e disso a América Latina oferece exemplos contundentes - falsos e bem divulgados resultados numéricos esconderam a realidade, nua e crua. Os mortos pelas ditaduras em todos os países em que o autoritarismo subiu ao poder superam em muito eventuais e não pretendidas conquistas (numéricas, exclusivamente) sociais. Cresceram, sim, a corrupção, a violência, a censura, e tudo quanto se busca esconder com o sigilo das informações. A diferença entre a Argentina e o Brasil mostra-se maior, ainda, quanto ao tratamento dado por nossos irmãos-além-fronteira à tortura e ao assassinato de divergentes. Lá, como no Chile, muitos dos direitistas envolvidos na matança promovida pelo e com armas do Estado, foram julgados e a eles aplicadas as penas cabíveis. Aqui, só agora se vislumbra, ainda que tenuemente, a intenção de reavivar a memória dos brasileiros, já que devolver a vida aos torturados e assassinados é impossível. Quando isso ocorrer, terá sido para nos tornar melhores como nação e cidadania. Benvinda contaminação!

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