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Varejeiras mais que varões

Conhecem-se como varões de Plutarco aquelas pessoas dotadas de comprovada idoneidade e ilibada conduta. Mesmo sabendo quão reduzidas numericamente elas vão se tornando, não há como evitar certas comparações. Neste caso, da Antiguidade com estes dias que se dizem de irrecusável progresso. Naquele tempo, o historiador romano indicava os servidores mais próximos dos governantes, que lhes ouviam os conselhos e recomendações. Sem receberem propinas, promessas ou presentes, tais auxiliares passaram à História porque se mantinham fiéis e obedientes aos interesses da coletividade - resumidamente, a res publica. Neste período em que a contemporaneidade empreende caminho de volta à barbárie, proliferam as varejeiras, à falta dos varões. Moscas facilmente atraídas pelo menor e adocicado quitute, elas levam seus trágicos apetites a todos os lugares. Quando não ocorre de se ocuparem em buscar alimento nas lixeiras. Não importa se isso destine suas vítimas à cova de um cemitério ou às quatro paredes de uma prisão. Se a justiça humana, mesmo republicana, prolonga o período de desfrute de sua maldosa predação, a História se incumbe de apressar a punição. Umas, vendo-se constrangidas a devolver objetos de sua apropriação indébita; outros, sendo defendidos e protegidos pelos que um dia se viram perseguidos e injustiçados pela parcialidade já devidamente constatada. Se - e quando - chegar, a justiça dos homens talvez encontre as varejeiras convivendo sobre outras mesas onde a culinária seja mais farta e doce. Mesmo que de seus antigos inimigos. Sabor nào é saber.

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A honestidade nunca foi um predicado da grande maioria dos nossos servidores públicos mais graúdos.

Tampouco o espírito público republicano.

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