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Tragédia e farsa

Tragédia e farsa


Farsante – foi como uma jovem classificou o Presidente da República. As palavras da moça, ditas a poucos metros do objeto da classificação, ecoaram multiplicadas nas redes (anti) sociais. Jornalistas e lideranças de vários setores replicam o que disse a frequentadora do cercadinho montado às proximidades Alvorada. O fenômeno que dá nome àquela dependência do poder nacional ocorre sempre, desde que o Mundo é Mundo, vencida cada noite. Rotineiramente, alteração devida à conjunção das forças da natureza, a alvorada ocorre sem exigir pronunciamentos, manifestações individuais ou coletivas. Entender suas causas, portanto, é matéria a entreter os estudiosos da ciência física, sempre curiosos em relação aos segredos e mecanismos da natureza. Gradativamente, tais ocorrências são esclarecidas, a não ser para os que nunca ouviram falar de Galilei ou dão de ombros para o que ele e seus colegas descobriram. Afinal, nem todos somos cientistas. Há, entretanto, os que não sendo cientistas também não são burros. Primeiro, porque se negam a seguir encangados, na sua bagagem o peso da mais densa e obscura ignorância – nem sempre ocasional ou descuidada. Depois, porque senhores das faculdades com que a natureza os dotou, e outras, adquiridas ao longo da vida. A garota de 19 anos, hoje tornada símbolo de toda uma nação perplexa e agredida, expõe a nudez do rei. Expressa, em poucas e simples palavras, o sentimento e o juízo que frequentam corações e mentes de mais de 80% da população. Certamente, a estudante Hadassa Gomes acompanha a vida política e tem boa memória. A ela a vida humana interessa, tenha ou não perdido parentes ou amigos infectados pelo vírus e pelos vermes bípedes que a ele se aliam. Não lhe escaparão à compreensão e ao discernimento o conjunto de promessas e as expectativas por elas geradas, na campanha eleitoral de 2018. Mesmo sem a oportunidade de ver o então candidato feito Presidente pelo voto em urna eletrônica, apresentar propostas ou debater com os concorrentes, a adolescente encontrou meio de saber da realidade em que vive e vivemos todos. Ela se deparou com a existência de uma situação econômica que antes da última eleição presidencial parecia definitivamente superada. Não foi preciso ir aos discursos oposicionistas, para entender a inflação, cujos números procedem dos órgãos oficiais e dos registros e comentários de organismos internacionais, inclusive. Hadassa também faz parte dos milhões de brasileiros que, atentos, testemunham o desembaraço com que conhecidos e contumazes predadores dos costumes políticos se assenhorearam do poder. Não parecia isso o que esperavam os moços como ela, a não ser que fizessem ouvidos moucos ao que diziam os mais velhos. Aqueles que, observadores do cenário nacional, têm dispensado alguma atenção aos diversos setores e organizações da sociedade e do Estado brasileiros. Neste caso, civis e militares, ricos e pobres, professores e alunos. Só os ignorantes por opção excluem-se desse universo. Mas, sejamos justos, não só a estudante de 19 anos mostra conhecimento de nossa tragédia e da figura nela mais proeminente. De outros setores, sobretudo daqueles que apostaram suas fichas na hipótese de o ódio ser mais forte que o amor, a morte ser mais poderosa que a Vida, a delinquência sobrepor-se à conduta proba também tem vindo o aplauso à expressão proferida pela estudante, no cercadinho-símbolo da senzala do séc. XXI.


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