Sobre "O ÚLTIMO DISCURSO -Final
- Professor Seráfico

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Walbert Monteiro*
Esse texto, apesar da citação de S. Lucas, não foi feito com objetivo religioso, pois seu autor era agnóstico. Há, contudo, uma convergência com o Evangelho, quando Chaplin faz a defesa da fraternidade, da misericórdia, da paz e da dignidade humana, que são valores cristãos. A diferença é que, para a fé cristã, esse ideal têm sua origem no próprio Deus, que criou todos os homens com igual dignidade e os chamou a viver como irmãos.
É impactante a exortação que faz à tropa: “Soldados! Não vos entregueis a esses brutais ... que vos desprezam ... que vos escravizam ... que arregimentam as vossas vidas ... que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar ... os que não se fazem amar e os inumanos. Soldados! Não batalheis pela escravidão! lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela ... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto - em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo ... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice. É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos”.
Ao final, Chaplin diz: “Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergues os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!”
"Hannah" é a jovem judia interpretada por Paulette Goddard. Ela representa todas as pessoas simples, perseguidas e sofredoras que mantêm viva sua esperança mesmo em dias de opressão. Hannah é o símbolo da humanidade oprimida. Quando Chaplin pede que ela "levante os olhos", é como se dissesse: não desista, porque a escuridão não terá a última palavra. Lembra o permanente chamado bíblico à esperança. Nas Escrituras, Deus convida seu povo a erguer os olhos e confiar que o mal e a injustiça não terão a vitória definitiva. Hannah é a mãe que perdeu um filho, o refugiado que busca um lar, a vítima da intolerância, o pobre, o perseguido, enfim, todo ser humano que clama por justiça.
O discurso nos recorda que nenhuma sociedade será grande se perder a capacidade de amar e de respeitar. A verdadeira vitória será dos que assim procederem. O texto é um exame de consciência coletivo que nos indaga que tipo de mundo estamos construindo. A grandeza de uma civilização não se mede pelo autoritarismo, mas pelo respeito ao povo e às instituições.
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*Jornalista e escritor, é membro da Acadêmia de Letras do Pará

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