SOB O IMPÉRIO DAS “NARRATIVAS” E DA PEDAGOGIA DA IGNORÂNCIA
- Professor Seráfico

- 21 de set.
- 4 min de leitura
Marcelo Seráfico
e José Alcimar*
Nos EUA como no Brasil, o debate público, quando ocorre, não está assentado em fatos. Predomina a lógica das "narrativas", entendidas como fragmentos de verdade absoluta, não como interpretações constituintes da própria realidade. A realidade, permanentemente atropelada, é o que menos conta nesse jogo de simulação e espetáculo. Afinal, e ao pensar com Heidegger, que coisa habita essa linguagem, que o insigne pensador alemão caracterizava como morada do ser?
Na hora em que as interpretações se encerram em si mesmas, elas se tornam doutrinas, não guardando uma gota de compromisso com a compreensão do oceano que lhes deu origem. Nenhuma dúvida persiste, cabendo apenas encontrar uma sequência de argumentos lógicos ou ilógicos que satisfaça a confirmação do que se quer afirmar. Quando refratário à dúvida e à crítica, o conhecimento não pode “aspirar ao sincero respeito, que a razão só concede a quem pode sustentar o seu livre e público exame”, como exigia Kant.
Essa atitude já foi, e talvez ainda seja, comum à parte da esquerda, especialmente do pseudomarxismo, que de fato é um positivismo que substitui a dialética pela mecânica na observação da história. Dialética e positivismo não se banham no mesmo rio. A diferença, contudo, entre essa "esquerda" e as direitas, a extrema em particular, é que para esta a história simplesmente não importa. Como não importa, no campo político o desafio deles não é a "educação política popular", mas sim a "funcionalização política da ignorância", sem o que não sobrevive o mal chamado “pobre de direita”, na verdade, pobre de direitos.
Ignorar é desconhecer, não saber. Para a extrema direita, a ignorância é um pressuposto necessário à dominação. A própria ideia de cidadania, por exemplo, não faz nenhum sentido, pois ela implica uma relação consciente dos indivíduos com o Estado, uma relação pautada por deveres e direitos cujo fim seria, de um lado, conter os conflitos da sociedade de classes e, de outro, pavimentar o caminho rumo à igualdade e liberdade. Isso, evidentemente, numa interpretação liberal e funcionalista, o que, nesses tempos de afronta à cultura, de falsificação da história e de destruição da memória até indicaria um patamar superior de consciência. A globalização do raso se impõe.
Queremos crer que Durkheim concordaria com esse argumento. Como sabemos, ele, apesar de um reformador, era um conservador. Hoje, seria visto como comunista e poderia estar filiado ao PT ou ao partido Democrata dos EUA como um de seus membros mais radicais. A "lógica das narrativas" desfez a unidade de referência epistemológica das visões de mundo. Ao assumir as narrativas como verdades absolutas, as pessoas se fecharam em dois universos superpostos, ambos avessos a qualquer proximidade com a história.
O primeiro deles são as "bolhas" produzidas pelas plataformas de virtualização das relações sociais. Nelas, reúnem-se, forjam-se e retroalimentam-se ideologicamente os "grupos de pertencimento" que compartilham "identidades". O segundo desses universos é o do "indivíduo narcísico", aquele para o qual sua própria subjetividade e as experiências que a constituem equivalem à totalidade do real. Sua visão de mundo, se fosse rigorosa, poderia ser chamada de "individualismo metodológico"; não sendo, é puro e simples solipsismo. Talvez pior, um solipsismo heteronomizado, carente de subjetivação.
A superposição desses dois universos de sociabilidade e de construção social das subjetividades tem um resultado paradoxal: dá origem a grupos de sujeitos isolados cuja unidade político-ideológico-afetiva é a "vontade de impotência", de conferir a terceiros a salvação do que sentem como sofrimento, desamparo, isolamento, angústia. Um tipo de desespero descategorizado, desprovido de mediações.
Não estamos falando, portanto, de um "tipo tradicional de ignorância", aquela que decorre da falta de acesso à informação e à educação. Estamos falando da ignorância como projeto de dominação política, a ignorância como perspectiva pedagógica e pressuposto político para a emergência e afirmação de instituições autoritárias. Não há dado estatístico ou evidência histórica suficiente para demover os extremistas de direita à frente do Estado e na sociedade civil de que o que dizem não corresponde à realidade. Presidida pela dissonância cognitiva, a mentalidade extremista foi programada para rejeitar tudo que excede sua visão programada, por mais objetiva que seja a realidade.
A "realidade" que lhes interessa é apenas e exclusivamente a dos que vivem aprisionados nas "bolhas de idiotização", vistas estas como o espaço de socialização privilegiado para a difusão do projeto e o encaminhamento do processo pedagógico. Infelizmente, essa realidade também é verdadeira para os ditos liberais, particularmente nos EUA. A diferença, porém, é que para eles os "inimigos" podem protestar. Mas objetivamente, oprimem, como os de extrema direita, cidadãos de dentro e de fora do país. A barbaridade é a mesma, porém, dissimulada em uma série de contenções.
Estamos de acordo, por tudo isso, que parte da estupefação quanto ao momento histórico que vivemos, vem da frustração de uma expectativa deixada pelo positivismo e suas várias expressões à direita e à esquerda do espectro político: a frustração da possibilidade de progresso como sinônimo de igualdade e liberdade na ordem capitalista.
Ao invés disso, vemos alargarem-se as fronteiras do Estado de exceção. Quem não era alcançado por ele e esperava não ser, agora é. A luta de classes numa situação como essa exige uma imaginação política ainda em gestação. No passado, ela levou à criação de associações, sindicatos e partidos, muitos operando em escala internacional. E hoje? Como recuperar luta de classes, seja como fato objetivo que se impõe, seja como leitura epistêmica e método de objetivação da sociedade de classes, seja como estratégia política?
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*(Professores dos Departamentos de Ciências Sociais e de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas)

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