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Sem risco

O capitalismo praticado no Brasil, mais do que em outras nações em que a acumulação do que São Basílio chamava o esterco da sociedade é valor cultivado, produz fenômenos interessantes. Pelo menos, do ponto de vista dos que estudam as relações interpessoais, numa sociedade em crescente processo de liquidez. Liquidação também, para sermos justos. Se toda e qualquer relação, por sua impermanência, dissolve-se no ar, a liquidação, física até, não poupa segmentos sociais diferenciados. A atuação das milícias, das polícias quantas vezes, dá a gravidade e a dimensão do fenômeno. E concorre para ilustrar o que Zigmunt Baumann chama sociedade líquida. Essa liquidez, tão ao gosto dos acumuladores tupiniquins, elegeu o sistema financeiro como depósito e templo. Para lá encaminha-se o produto da ação lesiva imposta aos consumidores e usuários, nesse confronto de que se sabe, por antecipação, qual o lado vitorioso. Assim, não se estranhe corresponder a toda falência de grande empresa o enriquecimento material do falido. Muitos suspeitam de que nenhuma operação industrial ou comercial rende tanto quanto uma boa falência. O qualificativo, aí, denuncia apenas a desejabilidade do resultado. Se lembrarmos que nenhuma empresa brasileira teria viabilidade se a ela não fossem destinados recursos públicos, ainda mais se firma essa impressão. Muito por causa disso, proliferam golpes como os que envolvem motoboys usados para prejudicar titulares de cartões de crédito. O crime tem origem na lassidão com que são tratados e custodiados dados pessoais dos titulares de cartões e de contas bancárias. Quem sabe, até comercializados? Em que pese a recusa dos agentes financeiros em assumir os riscos dos prósperos negócios a que se doam, há farta jurisprudência sobre o assunto. Não podem os envolvidos na densa proteção do esterco do mundo, negar-se a indenizar as vítimas dos golpes, a não ser que distribuam com todos os que com eles mantêm relações de negócios, os dividendos resultantes da aplicação de recursos que lhes chegam aos bem guardados cofres. Um dos acórdãos a que tive acesso insinua isso.

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