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Sem palavras

Todo macaco sabe o galho a que se agarra. O mesmo acontece com seus remotos descendentes. Tanto quanto os símios, os homens têm instinto de preservação apurado. Ainda mais quando sujeitos a constrangimentos fora de seu controle ou riscos de jogar fora o resultado de toda uma vida. Contem-se dentre estes os que nada seriam, condenados à mediocridade e à improdutividade de seu trabalho, muitas vezes servil. Passa por essa experiência o ex-Ministro da Justiça, Anderson Torres. Ontem, usou do direito atribuído aos cidadãos, todos - sem diferença entre os maus e os bons -, e se negou a dizer palavra, na audiência em que deporia a respeito de maquinações por enquanto parcialmente conhecidas. Nos bem guardados arquivos do ex-xerimbabo do ex-Presidente enxotado do Brasil, por mais de 60 milhões de cidadãos, uma mandado judicial determinou a captura de documento destinado a concretizar um golpe de estado. Comentaristas, jornalistas e analistas políticos tratam de entender os motivos pelos quais o ainda policial federal optou por ficar calado. Logo ele, que no desfrute de licença dois dias após ser nomeado Secretário de Segurança do Distrito Federal, foi atrás de seu beneficiador, em Miami. Ele sabe, portanto, das vantagens de manter-se mudo. Mesmo atentando contra a ordem jurídica e a Constituição a que ela se subordina, aproveita-se de instituto por ele mesmo negado, quando sob sua jurisdição estavam os negócios jurídicos do País. Circula a hipótese de que o depoente estaria animado a contratar a delação premiada, que ele sabe quanto pode minorar a pena da qual - isso ele também sabe - dificilmente escapará. De minha parte, prefiro ver aplicada a sentença dos mais velhos: quem cala consente. Essa a razão pela qual vejo sentido dúbio no instituto da delação premiada, se é que não há outros vícios que a ele podem ser imputados. Se ela concorre para fortalecer o princípio garantista que evita a produção de provas contra si próprio, há também a relação da mudez com a confissão da certeza do depoente quanto a ter cometido o delito. Assim, quando ocorre o fato de que Anderson Torres é protagonista, a mudez diz muito mais que cem palavras.

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