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Sem ilusões

Por mais que se tente, alimentar otimismo em relação ao ambiente político seria prova de enorme ignorância. A respeito de nossa História, nossos compatrícios e nossas instituições. Nem se precisa saber de tudo, uma probabilidade reduzida, como o diz a experiência. Mesmo os mais lúcidos e perspicazes analistas se deixam enredar numa teia que opera resultados apenas a curto prazo. Toca-se na superfície de tudo, as raízes e causas sendo sempre esquecidas. Lá na frente, as sequelas do mal de hoje poderão vir, mais virulentas - e pustulentas, sabe-se - que antes. Ilude-se quem pensa superadas as ameaças do golpe de Estado que os três poderes, de forma surpreendente porque inédita, frustraram. Há ovos de serpente espalhados em toda a estrutura oficial do País, e isso não exige mais que razoável aprendizado, para entender. Mesmo diante das mensagens que Lula tem mandado à nação, em algumas oportunidades lembrando a coragem e a bravura de Leonel Brizola, do outro lado ocorrem manifestações tão ostensivas contra a democracia e o Estado Democrático de Direito. Ora é o general fulano, com ou sem pijamas; ora é um coronel; ora são os lambe-botas paisanos que desferem entre palavrões próprios de seu linguajar, mensagens para intranquilizar a população. Uma nova forma de terrorismo, dirão alguns. Tais manifestações não são só isso. Nem são feitas sem um fio condutor que as ligue entre si. Está mais do que comprovada a cumplicidade de certos setores das forças armadas com os golpistas. A omissão do Batalhão de Guardas Presidencial e da Polícia Militar do Distrito Federal, talvez o episódio mais ostensivo da participação de agentes do estado nos crimes sob investigação, são ingrediente que já começa a ser quase desprezado. Aqui e acolá, tíbia declaração dos camaradas, insinuando passar a borracha em tudo, como se fôssemos uma horda de bárbaros, uns acobertando os outros - quando não compartilhando - na prática de crimes contra a democracia. Décadas após, vem a memória a frase com que o grande nascedouro de golpistas, a União Democrática Nacional, UDN proclamava valores semelhantes aos dos golpistas de hoje: o preço da democracia é a eterna vigilância. A democracia de Lacerda e seus sequazes era a mesma da direita do século XXI.

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