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Reincidência

Ignorância e desonestidade sozinhas são mais fáceis de evitar ou combater. Quando se juntam, ampliam a gravidade e a complexidade do problema a que se relacionam. O brasileiro parece ter-se acostumado ao logro a que sempre é levado, por força da perversa aliança entre a desonestidade e a ignorância. Tanto, que admite, aplaude e repercute ações que lhe trituram as esperanças e impõem crescentes sacrifícios. Faz tempo, mais de trinta anos, o Plano Real alterou a rotina e tirou a inflação da lista de flagelos nacionais. Se, a meu juízo, inflação não é causa, mas consequência das escolhas dos que detêm o poder, há quem a veja nociva em si mesma. Para argumentar, admito alguma razão nos que a veem assim. Sobretudo porque ela voltou com força e não por acaso. Nem se pode atribuir a fatores externos sua reinstalação entre nós. Tanto quanto podem ser atribuídas culpa e responsabilidades ao (des)governo pelas já quase 600 mil mortes compartilhadas com a covid-19, a ele também cabe responder pelo fenômeno a que a economia da usura e avareza dá tanta importância. O posto Ypiranga hoje revelado não mais que um moleque de Chicago, contemporâneo fora do tempo de Al Capone, tem a cabeça posta a prêmio. Não por suas vítimas, desprovidas do suficiente para comprar feijão ou pagar as contas de água e luz. Faltou-lhe no alforje de maldades o mínimo talento e conhecimento que satisfizesse os patrões transformados em opositores. Não é outra a interpretação possível face à nota da Febraban. Suspeita-se que os maiores bancos, no Brasil caminhando com os pés sobre tapetes vermelhos e alvo da submissa reverência dos seus prepostos, foram inspirados pela FIESP. A mesma que, dirigida por um parceiro da molecagem de Chicago ou Wall Street, tanto faz, criou a figura do pato. Um pato protestante contra o tributo, afeiçoado à representante pela hostilidade dos representados a tudo quanto ao menos lembre a justiça social. Aqui, como em tantas outras nações empenhadas em eliminar o que ainda resta de democracia, encontra-se talvez a mais contundente vitrine do fracasso das políticas neoliberais. Sem anular o previsível fracasso do capitalismo sem risco e bem abrigado sob o manto do Erário, os crimes aqui se repetem sob o coro dos inimigos da democracia e lavados pelo choro das centenas de milhares de famílias que perderam parentes e amigos porque todos um dia seremos mortos. Reincide-se nas práticas; exterminam-se populações; disseminam-se inverdades; investe-se contra os poderes constituídos – pois nada é mais propício aos violentos que gerar o caos. Aos desprovidos de qualquer laivo de humanidade o caos e a reincidência sempre serão bem-vindos.

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