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Quando outubro chegar

Houvesse o mínimo discernimento (quem sabe o menor interesse?) na cabeça dos governantes brasileiros, o menos que seria de esperar no ano do bicentenário da Independência e do centenário da Semana de Arte Moderna seria a execução de programa que pusesse a educação e a cultura nacionais em foco. Algo levado a todas as regiões, com vigorosa programação de encontros e eventos, ao fim da qual fossem mostrados caminhos que o País precisa trilhar, sob pena de ver ainda mais comprometido o futuro de sua gente. Uma utopia, dirão os hostis a temas ligados à educação e à cultura, neles tão escassas. Ao contrário do que têm feito outras nações, mesmo algumas escravas do sistema de mercado, não conseguimos superar condições que tornam o Brasil ocupante de constrangedora posição no ranque internacional. Aqui, tal atraso e, lamentamos admiti-lo, retrocesso também, são devidos à forma perversa como se tenta apagar tudo quanto indica rumo menos atrelado aos interesses puros e simples do lucro. Como qualquer mercadoria posta à venda, a educação pública tem sido desvalorizada, até o ponto em que estabelecimentos e setores importantes voltados à obtenção de ganhos fabulosos substituem as escolas mantidas pela contribuição dos cidadãos. Assim ocorre porque, no Legislativo e no Executivo, preponderam interesses de que os mandatários populares se fazem advogados. O pior, no entanto, é a audiência obediente do contribuinte brasileiro, cuja preferência é pela subserviência aos que o constrangem, que pelo empenho em ver satisfeitas as necessidades de que deveria ocupar-se o Estado. Este, ente abstrato nascido da vontade de todos, acaba empolgado por mãos e apetites vorazes, não cumprindo o mínimo que seria justo exigir. Na América Latina, se ocupamos a primeira posição em termos econômicos, é nada confortável a posição relativa a muitos dos aspectos a que podemos chamar com propriedade sociais. De tal sorte, que proliferam e se multiplicam como ratos (sem qualquer ironia) estabelecimentos e instituições a que deveríamos chamar empresas de ensino. Empresas, porque tendo como objeto único o lucro. De ensino, para não dizer adestramento, porque educação é exigente de mentes abertas e ilustradas. É certo que no segmento dos docentes, científicos e culturais, é maioria a dos profissionais competentes. Nada, porém, capaz de remover o propósito destrutivo dos que governam os respectivos setores, a partir do mais alto escalão da república. Basta traçar o histórico recente das pastas a que se vinculam as respectivas atividades, e se poderá constatar o tempo perdido. Nada, todavia, que os próprios cidadãos não possam alterar. Desde que não se deixem mais uma vez enganar. Saberemos disso somente em outubro.

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