Porteira aberta

Vai-se cumprindo a agenda anunciada pelo sinistro Ricardo Salles, na ilustrativa reunião planaltina de 22 de abril. O desembarque nos sertões brasileiros desta vez abriu as porteiras por onde a boiada deveria passar. Mais avassaladora que a chegada a Porto Seguro, faz cinco séculos e pouco mais. Na manhã desta segunda-feira, o Conselho Nacional do Meio Ambiente, expurgado da substancial representação social, removeu os obstáculos denunciados pelo sinistro do setor sem qualquer constrangimento, a não ser o do seu fugaz colega sentado à direita, Nélson Teich. As consequências da revogação de portarias protetoras da natureza não demorarão muito adiante da reunião do órgão coletivo protetor. Não são, porém, somente os caranguejos dos manguezais, as maiores vítimas das decisões desta manhã que entrará para a História pela porta dos fundos. Talvez as mais visíveis, porque afetam a mesa e o prato de grande parte de brasileiros, seus colhedores incluídos, aos artrópodes se juntam populações inteiras já agora mal servidas do que o clichê há décadas chamou de precioso líquido. Guarapiranga, Billings e Cantareira, em São Paulo, pelos beneficiários de seus mananciais logo dirão. Mas não só eles, porque Brumadinho ainda está firme em nossas (más) lembranças. Não é só isso, porém, dada a permissividade com que o uso de agrotóxicos e os resíduos sólidos passará a ser utilizado. Nestes tempos de mentira e pandemia, não é a primeira, nem a mais transparente agressão ao povo brasileiro. Nem a forma chega a ser inédita, diante da revogação talvez pioneira, que afastou o Exército da normatização, controle e fiscalização do comércio de armas. De revogação em revogação, escancaram-se as porteiras por onde passará tudo o que a ausência de oposição, a cumplicidade criminosa das elites e a voracidade dos autoproclamados investidores desejar.

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