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Pensar (ainda) não ofende

Pela cabeça do Homem passa tudo, desde o sonho ao apocalipse. Geralmente, muito do que se pensa deixa de ser realizado. Logo em seguida da operação mental até séculos à frente. Os grandes visionários têm perpetuada sua memória por essa capacidade que nem a todos foi atribuída. E pela consciência que têm disso: universo diferente do em que o Homem se insere, a mente humana não tem limites. Tivesse-os, continuaríamos à espera de Galileu, para dizer e mostrar a forma esférica da Terra. Leonardo da Vinci certamente não teria imaginado o helicóptero, nem Michelangelo atribuiria beleza à Capela Sistina. Só ao homem é dada a possibilidade de conjeturar sobre o que não conhece e ainda está por vir, a partir do que já foi e do que é. Mesmo se a percepção de todo indivíduo extrapole dos dados da realidade, devemos compreender que o universo interior dele contribui para acrescentar, reduzir ou tornar diferente o objeto de sua observação. Isso torna diferentes as interpretações dadas a um mesmo fato ou relação, segundo as diferenças individuais. Arrisco-me,m portanto, a levantar suposições, tendo em vista o processo e a realidade política do Brasil, no período que antecede as eleições de 2022. Vejo o futuro, portanto, cabível dentro de um dos três cenários, talvez até mais, possíveis de construir. O primeiro deles poderá mostrar o quadro de disputantes presidenciais algo diferente do que até agora se imagina. Ainda não tenho como certo que Lula e o atual Presidente têm posição definitiva na linha de largada. O atual Presidente, porque sequer se pode garantir que levará a termo o seu mandato. O que Rodrigo Maia impediu, quando ainda não se tinham perdido mais de 500 mil vidas, ficou para trás, mas ficou latente. Já existia, mas explode agora, com as revelações pouco a pouco produzidas pela CPI do Senado. O impeachment do Presidente, então, volta a ser ingrediente importante no cardápio político. A qualidade e os interesses do grupo que o apoia, no Congresso, não costumam mantê-lo em barco que faz água. Há, porém, observadores que admitem até a possibilidade de ele renunciar à Presidência, para ser poupado de ter posta a nu toda sua história pessoal. Mesmo os que o excluíram do seu meio e agora vivem em aparente convívio solidário não resistiriam a mantê-lo no poder, Ainda mais se isso ajudaria um camarada de armas a ocupar o posto. O general Hamilton Mourão parece mais palatável, com a vantagem de que a eventual "mijada" já não viria de um inferior - em tudo. Aqui, permito-me cogitar de que a renúncia se vincularia a compromissos tão ao gosto de nossas elites. A salvação do próprio renunciante seria completada com a dos que dele dependem. Seria encontrada uma forma de deixá-los todos previamente protegidos das sanções legais a que qualquer cidadão tem que se submeter, pelos atos marginais à Lei praticados. Ou seja, uma vez marginais (na hora de ofender as leis) sempre marginais (na hora da justa apenação, também). A segunda hipótese seria a recusa do impeachment pelo Congresso e da renúncia, iniciativa que só ao Presidente caberia adotar. A manutenção de sua candidatura, nesse caso, seriam favas contadas. Isso impediria Lula de abandonar o páreo, ainda mais quando as pesquisas indicam números promissores. Se esses números se confirmarem, a guarda pretoriana do Presidente se incumbiria de fazer o que a covid-19 vem fazendo, beneficiária dos mesmos estímulos e patrocínios que ele promove. Seria difícil prever o número de mortos por mais essa razão, mas esse não é problema que se espere ele leve em conta. A terceira hipótese teria algo a ver com o que aconteceu em 1961, quando o mandato presidencial de João Goulart foi castrado, de que resultou um dos mais vergonhosos acertos de que se tem notícia na História do Brasil do Século XX. Natimorto, o parlamentarismo de algibeira feneceu menos de dois anos depois. Podemos contar numerosos acórdãos sem pé nem cabeça, alguns desprovidos até do notório saber exigível dos membros do STF, mas não se pode negar o talento de nossas elites para chegar a acordos com os quais se têm construído a injustiça e a desigualdade no País. Quase sempre, à custa de vidas humanas, nas masmorras, nas prisões ou nos hospitais sem oxigênio e medicamentos.

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por mais que as aparências mudem, nada muda.

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