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Pegar leve

Pensamento bem-humorado ensina ser dificílimo prever o futuro. As previsões sobre o passado seriam mais adequadas. Essa manifestação espirituosa não invalida a atenção a ser dada à História, como fonte de informações capazes de levar-nos a arriscar dizer como serão os dias vindouros. A formulação de hipóteses, na construção do conhecimento científico recomenda isso. Quando a hipótese é desmentida pelos fatos e pela experiência de laboratório, nem assim perderá validade o método. O embate entre a eficácia ou a inocuidade da hidroxicloroquina para prevenir e curar a covid-19 é ilustrativo. A observação do cenário político, tão rico quanto sujo ele seja, não tem totalmente obscurecido os sinais que podem mostrar caminhos, virtuosos ou viciados. Ponham-se em relevo, tentando compreende-los em suas recíprocas relações, os acontecimentos, surge a oportunidade de ao menos imaginar as prováveis ou apenas possíveis consequências. Refiro-me especialmente, à preocupação de alguns setores da economia e dos media amazonenses, com a MP que poderá alterar o preço dos combustíveis praticados em Manaus e seus reflexos sobre o PIM. Se sancionada pelo Presidente da República, a Medida transformada em lei poderia constituir-se no topo da ladeira a ser percorrida de alto a baixo, pelos negócios mantidos graças à zona franca aqui instalada. Embora não se trate da primeira tentativa de roer por dentro a economia do Amazonas, os promotores e detratores do que os beneficiários chamam modelo não têm recebido se não votos, homenagens e títulos de benemerência. A tanto nos leva o esforço por corresponder à figura desenhada por Nélson Rodrigues, tônica da conduta de lideranças políticas e empresariais do Amazonas. No caso, indo além da proposta de sermos portadores de um complexo, à moda do que disse Freud. Já leio a insinuação de que a condução da CPI da covid-19, que tem revelado o abismo de lama em que a nação foi metida, além de enterrar mais de quinhentos mil seres humanos, porá o barco a perder. Há, veladamente, o pedido de que o senador Osmar Aziz “pegue mais leve”. Ou seja, finja ignorar as denúncias formuladas contra os promotores que boa parte da sociedade tem como genocidas, para que não cesse o enriquecimento dos que aproveitam os favores que a ZFM proporciona. Põe-se clara a dicotomia tantas vezes negada e tantas vezes reafirmada, da preferência pelo lucro, quando a vida humana está na outra ponta da corda. Infelizmente, os fatos pretéritos recomendam cautela na apreciação dos fatos. Afeitos e simpáticos ao comportamento da sequestrada de Estocolmo, não nos desagradam(às vezes até são festejados com orgulho) a reverência e os rapapés dirigidos aos que nos fazem o mal. Devemos ter os olhos bem abertos e a mente suficientemente lúcida, se desejamos que esta especulação não descreva antecipadamente o que podemos esperar.

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