Pandemia e endemia

Faz poucos dias, adverti para os resultados então incertos do segundo turno. Considerava àquela altura sem fundamento o triunfalismo de qualquer das forças em disputa. Também buscava conter a tendência a interpretar a eleição municipal como um confronto entre a esquerda e a direita. Essas duas posições quase nunca resumem a inclinação ideológica dos protagonistas no cenário político, local e nacionalmente. Creio que o próprio elenco de partidos, de tão numeroso, desautoriza qualquer interpretação nesse sentido. Se não quisermos estender demasiado este comentário, bastará lembrar que Jair Bolsonaro, a liderança direitista mais destacada, traz em seu currículo registros em geral atribuídos aos esquerdistas, a começar pelo ataque terrorista planejado contra o sistema de abastecimento de água do Rio de Janeiro. Nem precisa lembrar do entusiasmo que o levou a confessar admiração por Hugo Chávez. Não difere dessa conduta errática e sem coerência a maioria dos partidos, equivocamente ditos de centro. Também difícil identificar como postadas à esquerda do espectro ideológico muitas das siglas a que se tem atribuído tal posição. Mesmo partidos suposta e historicamente orientados por ideias próximas do socialismo nem sempre têm revelado apego suficiente a essas ideias. Outros apenas praticam formas sub-reptícias de populismo, nada além disso. Diante dessa geleia geral, torna-se arriscado usar as categorias com as quais se tem analisado o processo político, com o mínimo critério. Nessa linha de raciocínio, não cabe falar de esquerda ou de direita, a não ser quanto ao PSOL e ao PSTU. Não sei até que ponto. Nem o PC do B, tantas as concessões em que incidiu nas últimas décadas, pode somar-se a essas siglas. Parece-me igualmente equivocado o tratamento dispensado por analistas improvisados, gerando a imagem de partidos como o PT, PDT, PSDB e PSB em algum grau por eles vinculados a ideais mais que apenas progressistas. Pelo menos , não é isso o que atestam os parlamentares desses partidos, nas principais decisões de que participaram. Os destaques da eleição, portanto, nem muito bem recortados e colados uns aos outros são capazes de desenhar um painel dotado da menor coerência. De expressivo avanço, ainda menos. Aqui e acolá, o máximo a constatar é a vitória pessoal de alguns dos protagonistas do processo eleitoral. Se, em São Paulo, Covas pode cantar vitória, o mesmo pode ser dito de Boulos, sem que se possa dizer o mesmo de Doria. Surtiu efeito positivo na votação do tucano reeleito a distância governador. Os Gomes do Ceará também ganharam, lá onde Bolsonaro perdeu. Pode-se dizer a mesma coisa em relação à Edmilson Rodrigues, do PSol do Pará. Neste caso, há mérito que parece ausente em outras capitais, a frente de resistência que se formou contra o candidato do Presidente. Por esta circunstância, muitos com o dedo premindo as narinas votaram em Edmilson. Manuela, em Porto Alegre, terá logrado a construção de frente semelhante, mas não obteve o mesmo resultado de Belém. No Rio de Janeiro, destaque-se o fracasso de Bolsonaro, talvez maior que o da capital paulista. Não só pelo apoio explícito a Marcelo Crivela. Também pela intersecção da política com religião, sempre ameaçadora ao Estado laico. Restaria, talvez, mencionar Recife. Ali, porém, os fatos ainda não deixam claro tratar-se de algo mais que rusga de família. Ideologicamente, nada foi ganho, nada foi perdido. A destacar, do ponto de vista político, o surgimento de duas promessas – Guilherme Boulos e Manuela d’Ávila. Outra nova liderança, sem que se conheçam os reais motivos, preferiu a coxia ao palco. Trata-se de Marcelo Freixo, a esperança fluminense por enquanto fora do palco. Se a covid-19 é a pandemia a ameaçar vidas sem que chegue a vacina, o centrão é a endemia contra a qual parece não haver vacina.

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