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Paga quem pode

Antes chamava-se pacote. Hoje, os os objetivos permanecem os mesmos, mas o nome é outro: arcabouço, sucessor da efêmera âncora fiscal. Talvez o título teve que ser substituído porque a responsabilidade dos que governam não esquece dos aspectos sociais em que estão embrulhadas as decisões partidas das altas esferas do poder. O agora chamado arcabouço contém as medidas e instrumentos que as autoridades pretendem pôr em prática, para corrigir velhos problemas brasileiros, em especial os que nos tornam um dos piores países no item desigualdade. Em fantasia e bateria talvez nenhuma outra nação nos ganhe. Para isso os governos, em todos os níveis, não poupam polpudas verbas. Basta passar ligeiro olhar nos boletins de compra como se configuram os jornais diários ainda impressos, ouvir estações de rádio e pôr-se diante de uma televisão. O triunfante estardalhaço oficial contrasta com o que se vê nas ruas, mais frequentemente na periferia das cidades, quase sempre vitimando as vítimas de preferência: pobres quase todos - pretos, mulheres, indígenas, membros da comunidade LGBT+QIA. O fato é que começa a tramitar no Congresso um arcabouço que pretende tirar de quem pode para dar a quem não pode. Esta a fórmula simples e adequada pada corrigir a vergonhosa e desumana distribuição da riqueza. Talvez não seja possível corrigir de todo a situação de desigualdade, há décadas cuidadosamente cultivada, e agravada nos últimos quatro anos. Sendo que, nesse período, ostensivamente acelerada e aprofundada sob a ameaça de armas fartamente distribuídas. Vejam-se os arsenais mantidos em mãos dos que só sabem acumular e dos que defendem seus valores e propósitos! Isso só, bastaria para inspirar a esquecida responsabilidade social. Neste caso, dever de todo cidadão merecedor desta qualificação. Até o ponto em que também possa ser reconhecido como um ser humano. A rigor, é a facilidade da fórmula que atrai problemas. Uma das leis mais divulgadas nas boas escolas de Economia diz que à poupança (P) corresponde o investimento(I). Traduzindo em miúdos: qualquer indivíduo, no capitalismo, gostaria de investir. A poupança resulta de duas simples operações dentre as quatro da Matemática fundamental: somar e subtrair. Na primeira estão os ganhos individuais ou familiares; a subtração é feita pelas despesas que satisfazem as necessidades básicas de sobrevivência e as outras, que conferem qualidade de vida às pessoas. Sabe-se que o salário-mínimo da grande maioria dos trabalhadores (quando ocorre de terem a carteira assinada) não paga sequer metade dos gastos relativos às necessidades primárias, aquelas que impedem total igualdade com os animais ditos inferiores. Somadas às que eles, os chamados bichos, têm: comida, segurança, afeto. Pois bem! Onde estão e quais são os potenciais investidores, dentro do quadro iníquo que revela a pirâmide socioeconômica do Brasil? Aqui, também rápido passar de olhos no gráfico piramidal o demonstra com extraordinária nitidez. Somente 1% da população acumula cerca de 50% da riqueza produzida. Diga-me um brasileiro sensato, no uso de todas as suas faculdades emocionais e mentais: de onde devem ser tirados os recursos que reduzirão a desigualdade? Nada mais do que pôr em prática o ideal e o propósito de quem, tomado pela responsabilidade social, deseja levar a sério uma exigência ética e política que ofereça a todos segundo suas potencialidades e a cada um, segundo suas necessidades. Se investimentos públicos são necessários (sistemas de transporte, segurança pública, habitação, educação, saúde e saneamento etc.) e a política tributária existe para, inclusive, promover investimentos públicos e privados, há de ser tirado de quem tem, em favor dos que não têm. Quem sabe um dia chegaremos a pagar dignamente todo empregado e os veremos frequentar as bolsas, porque desejam participar da terceira operação matemática - a multiplicação. Para isso, alguns precisam aprender a dividir. Vejam que nem estou falando de socialismo, mas de um capitalismo tal como o apresentam os que recusam a responsabilidade social. A sorte está lançada. O debate agora será no Congresso. Vamos ver como se comportam, sobretudo os 142 parlamentares que racharam o Centrão e reduziram a prepotência de Arthur Lira.

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se em mais de quinhentos anos nunca resgatamos a dignidade do trabalho braçal...

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