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O tiro e o atirador

Mesmo aos que valorizam a bala ao invés da palavra e do argumento, talvez fosse proveitoso medir as palavras. Estas, porque saídas pela boca, podem fazer tanto mal ao que as pronunciam, quanto o mais mortal veneno. Pela boca morre o peixe, posto aos desígnios de um anzol. Muitos têm encontrado destino trágico pelo que disseram. Outros veem derrubada a fama e desmascarada a farsa, porque a conduta contradiz as palavras proferidas. Isso acaba por gerar situações como as de que se ocupa a CPI do Senado, criada para descobrir os detalhes da tragédia que já levou mais de 530 mil vidas de brasileiros. Nesse palco, as palavras têm desempenhado função fundamental e pedagógica. Tanto pelas mentiras nelas traduzidas, quanto pelo que muitas delas escondem. Por causa disso, o Presidente do órgão de investigação se viu forçado a determinar a prisão de um dos depoentes. O quanto bastou para ver-se intimidado - e, com ele, o Senado e o Poder Legislativo, em consequência - pelas mais altas autoridades militares do País. Daí a emissão de uma nota oficial sob qualquer aspecto abusiva, intolerável, condenável e merecedora do mais enfático repúdio. Sob o pretexto de defender as Forças Armadas, o documento trouxe à população duas impressões: a de exorbitância e a de cumplicidade. A primeira, pela desproporção e impropriedade, eis que o senador Omar Aziz foi claro ao indicar o objeto de sua crítica - a banda podre das forças. Em si mesma, a expressão usada pelo representante do Amazonas não generaliza seu conceito, antes o restringe àqueles militares envolvidos em falcatruas, enquanto aumenta o número de mortes pela covid-19. A cumplicidade é sugerida pela natureza das denúncias e acusações, muitas delas perfeita e cabalmente comprovadas. Ora, diante das evidências, o socorro a quem cometeu atos delituosos não pode excluir a consideração de cúmplice para os socorristas. Ao atirador não basta saber portar e premir o gatilho de uma arma. Pontaria boa é a que faz bom o atirador. Alvo errado, bala perdida - como se costuma dizer, não sem enorme dose de equívoco.

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