O LADO OCULTO DA LUA, A CEGUEIRA DO ÓBVIO E O DESASTRE
- Professor Seráfico

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José Alcimar*
A mim pouco me preocupou nem me comprometeu o sono a falta de visão sobre o lado oculto da Lua, agora mostrado graças à missão Artemis II da NASA. Trata-se de um hemisfério lunar que embora invisível a nós, terráqueos, por estar fora do alcance de nossa visão, seguramente nunca nos causou nenhum malefício, ao contrário de tantas coisas visíveis, por demais óbvias, bem diante de nós, aqui na Terra, que nos roubam o sono e só produzem maus afetos. E mais: coisas para as quais o conhecimento humano historicamente acumulado e disponivel costuma virar os olhos. Não são coisas ocultas, mas ocultadas. Tiradas de foco e mantidas à sombra. O lado oculto da Lua, em seu mistério eterno e inofensivo, segue seu devir cósmico e não deveria ser instrumentalizado pela arrogância da tecnociência, funcional à lógica do lucro acima da vida e governada por três poderes associados a serviço do mal (físico, metafísico e moral): a plutocracia (o poder do dinheiro), a caquiscracia (o poder do pior) e a necrocracia (o poder da morte). O mesmo poder que produz o espetáculo tecnológico da visibilidade do lado oculto da Lua, que pode encurtar distâncias, é também o que produz a miséria visível, silenciada, que a cada dia maltrata e faz do belo planeta Terra um inferno físico, moral e carente de metafísica. Sob o controle férreo do modo capitalista de produção e de seu metabolismo biocida, a passagem da época geológica do holoceno ao antropoceno dificilmente vai alterar a rota suicidária que conduz a Terra à época já visível do desastroceno. Desastre em sua raiz grega significa astro ruim. Deve ser o astro que orienta os rumos predatórios do capital.
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*Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas. Abril de 2026


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