O INCONTORNÁVEL MARX



José Alcimar de Oliveira *


Ser radical é agarrar as coisas pela raiz.

Mas, para o homem, a raiz é o próprio homem (Marx)


01. Mesmo depois do período do grande racionalismo da filosofia moderna ainda é possível (e talvez necessário) pensar a questão do conhecimento contra e a favor de Kant, mas para quem deseja pensar o processo cognitivo com a devida honestidade intelectual e epistemológica, é impossível fazê-lo sem a incontornável contribuição kantiana. O grande Euclides da Cunha, que não foi exatamente um leitor atento do edifício crítico do mestre de Koenigsberg, numa das missivas de seu rico epistolário chega a se referir a Kant como um “Aristóteles estragado”. Quem escreveu uma obra da estatura de Os sertões tem direito de ser grande até nos preconceitos. Mas há consequências.

02. Há 203 anos, em 05 de maio de 1818, nascia em Trier, na Alemanha, Karl Marx. Desde aí nunca mais pode a burguesia dormir tranquila. Diferentemente de Jesus de Nazaré, a sorte do judeu Marx é que na época de seu nascimento Herodes já estava em seu devido lugar, e, portanto, impedido de assessorar a burguesia alemã da época que, de posse de vidente informação do nascimento do mourinho dialético, não teria relutado em repetir a herodiana ordem genocida de eliminar todas as crianças abaixo dos dois anos de idade. Seria (para ela) matar o mal pela raiz.

03. Mas os economistas burgueses, herodianos ou menos herodianos, se honestamente quiserem compreender o funcionamento do sistema do capital, terão que a contragosto recorrer à insuperável contribuição do pensamento marxiano, construído pela mais longa, solidária, produtiva, crítica e inteligente parceria intelectual já registrada pela história: Marx e Engels. Com igual força epistêmica, o que foi dito sobre Kant vale para a contribuição de Marx e Engels. Contra ou a favor, pode ser, sem eles, jamais. Não há como abstrair do olho o lugar social de onde se olha. Boa parte da burguesia sabe disso.

04. Numa compreensão sintética dessa longa e fecunda parceria intelectual e militante e do reconhecimento honesto do seu legado para a luta emancipatória da classe trabalhadora, é possível identificar o entrelaçamento dialético entre Filosofia, Direito, Economia e Política, incluídas também nesse constructo Educação, Religião e Moral. Marx, inicialmente, parece ir da Filosofia e do Direito à Economia. Engels, a considerar sua juvenil e precocemente clássica Situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de 1845, parece ir da Economia e do Direito à Filosofia. Penso que se a trajetória dos dois não houvesse se cruzado, a burguesia dormiria mais sossegada.

05. Muito antes do nascimento dos dois parceiros, do Mouro de Trier e do seu fiel General, o mundo já produzia mercadorias e a sociedade de classes já possuía longa história. O que ainda não havia se consolidado com intensidade e abrangência de alcance universal era o modo capitalista de produção, menos ainda sua objetivação epistêmica. Valor de uso e valor de troca já existiam, mas os economistas burgueses davam como natural que o valor de uso escondesse o valor de troca e os dois, numa relação aparentemente estável, escondessem o valor-trabalho. Não fosse a investigação da dupla, esta ocultação teria um longo fôlego.

06. Assim como é repetido que Kant atribui a Hume tê-lo despertado do sono dogmático, é possível que num sonho Heráclito tenha aparecido a Marx e exigido dele uma interpretação materialista e histórica de sua sentença fragmentária, mas dialética, de que a natureza gosta de se esconder. Ou seja: Marx e Engels não inventaram nada, não viram fantasmas, o mundo já estava aí, com suas fraturas e dilaceramentos sociais, mas carecia de objetivação honesta, dialética, materialista e histórica. Havia um problema ocular: os óculos das teorias burguesas em lugar de diminuir, agravavam a miopia cognitiva.

07. Quanto a mim, nada contra o marxismo acadêmico, com sua imensa capacidade teórica de trazer à sala de aula as contradições reais vividas na pele e na mente pelos subalternizados e vulnerabilizados pela ordem escura do padrão de produção e consumo do sistema do capital. Mas os ilustres acadêmicos marxistas deveriam dar a devida atenção dialética à tensão não menos dialética entre interpretação e transformação, conforme a sentença undécima das teses marxianas sobre Feuerbach: os filósofos até hoje se limitaram a interpretar o mundo de diferentes formas, o que cabe agora é transformá-lo. E palmas para o Mouro de Trier e para a luta da classe trabalhadora!

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* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo-vice-presidente da ADUA-Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, aos 05 de maio do ano (ainda) coronavirano de 2021.

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