O impedimento do impeachment

O jornalista Jânio de Freitas especula, em artigo publicado ontem na Folha de São Paulo, sobre as possíveis razões de ainda não tramitar no Congresso um das dezenas de pedidos de impeachment do Presidente Jair Bolsonaro. Segundo o articulista, pela quantidade e variedade de crimes de responsabilidade que podem justificar o pedido, desde o primeiro trimestre de 2019 a matéria já deveria ter sido apreciada. Vai mais além o experimentado jornalista. Para ele, há certa acomodação do próprio Congresso, menos pela intenção de proteger o Presidente, que pela figura de quem o sucederá, respeitado o que preceitua a Constituição Federal. Impossível imaginar em Jânio alguma ignorância a respeito de outras razões. Como quase todos sabemos, é possível que o general Hamilton Mourão tenha acumulado nestes menos de 18 meses de governo, conhecimento suficiente sobre como funciona o mundo civil e como a manutenção da democracia capenga é preferível ao rompimento da Constituição. Em termos de perspicácia e conhecimentos, e anos-luz à frente do cabeça da chapa de que fez parte, o ex-Presidente do Clube Militar a esta altura terá aprendido quanto mal faz ao País manter o clima de intranquilidade que o ex-colega de caserna faz questão de estimular e ampliar. Melhor que nós, fora do poder, o Vice-Presidente sabe quanto é visado pelo gabinete do ódio instalado no Planalto. Até de comunista já o chamaram.

Sabe-se - quem está dentro e quem está fora do poder - que boa parte dos parlamentares sente-se ameaçada, caso Mourão chegue à Presidência. O centrão está aí mesmo, para oferecer alvos interessantes, se interessa mesmo combater a corrupção. E não é com Bolsonaro que isso será alcançado. Alguém duvida?

Outra hipótese não pode ser negligenciada: a tentativa de ver o atual Presidente sangrar, até 2022. No seu sangue escorreria também a sonhada oportunidade de ver o mandato renovado. Aqui, quase todos duvidam de que seja estratégia acertada.

No fundo, o pouco apreço pela Constituição parece sentimento generalizado. Daí a recusa em proceder como ela determina que seja feito, sempre que algum crime de responsabilidade possa ser alegado. Quem duvida de que eles são numerosos, acumulados desde o primeiro dia em que o Presidente Bolsonaro pôs os pés na rampa? Com uma agravante, que o pai da conquista política de Bolsonaro deixou explícita - a prática de outros crimes.

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