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O "Essencial Chomsky" aperta o nó que ata linguagem, liberdade e luta

Num levantamento dos dez autores mais citados no ambiente acadêmico, o escritor norte-americano Noam Chomsky é o único vivo. Aparece em oitavo lugar, logo depois de Freud e antes de Hegel.

Além de escrever, Chomsky dá entrevistas e palestras com cadência semanal. Faz isso há décadas e está com 95 anos, o que lhe confere uma auréola dupla, a de sábio venerável e astro pop, ainda que mais no exterior do que em casa.

É professor emérito do Instituto de Tecnologia de Massachussets, o MIT, e dá aulas na Universidade do Arizona. É menos famoso nos Estados Unidos porque, sendo um crítico radical do status quo, aparece pouco na grande mídia.

Quando aparece, faz barulho. Escreveu com dois colegas no New York Times sobre o ChatGTP e outros programas de inteligência artificial. O artigo afirma que, "dada a amoralidade, a falsa ciência e a incompetência linguística desses sistemas, só podemos rir ou chorar da sua popularidade".

No governo Trump, disse à revista New Yorker que ele era "o pior criminoso da história mundial". Como assim, pior que Hitler e Stálin?

Isso mesmo, pois Hitler "não dedicava seus esforços, de forma perfeitamente consciente, a destruir a perspectiva da vida humana na Terra". E Stálin "queria manter o poder e o controle. Matar foi um meio para atingir esse fim".

Quanto a Trump, lançou um repto ao entrevistador: "Que figura importante na história da humanidade dedicou uma política à maximização da utilização de combustíveis fósseis e à redução de regulamentos que mitigam o desastre? Diga uma."

O jornalista, Isaac Chotiner, bem que tentou: "Bolsonaro, talvez". Chomsky o rebateu dizendo que o brasileiro é um "clone" do americano e que o imita perigosamente, "mas não foi tão longe quanto Trump".

Ilustração de Bruna Barros para coluna de Mario Sergio Conti de 3 de maio de 2024 - Bruna Barros/Folhapress

Escreveu um número inconcebível de livros: 150. A maioria é de linguística ou política, mas há alguns sobre filosofia, moral, história, ciência e imprensa. Nenhum deles é central à sua obra como, para Darwin e Freud, "A Origem das Espécies" e "A Interpretação dos Sonhos".

Por qual começar? Uma boa escolha é o recém-lançado "O Essencial Chomsky". Publicado pela editora Crítica, o livro de 654 páginas tem 25 prefácios e ensaios. Serve de preâmbulo à revolução linguística e ao ideário político de Chomsky. É inteligência em estado puro.

O livro começa com a resenha que é considerada a mais influente do século 20, a de "Comportamento Verbal", de B.F. Skinner. Ela expõe com elegância e clareza o cientificismo de Skinner, que mascara com analogias sua falta de substância. O behaviorismo nunca mais foi o mesmo.

Outro texto que marcou época é "A Responsabilidade dos Intelectuais", escrito no pico da invasão do Vietnã. É a partir dela que o artigo recenseia o amparo de intelectuais –cantados em prosa e verso como independentes– ao furibundo belicismo de democratas e republicanos.

Aos altos princípios dos especialistas –propagação da democracia, combate à opressão, defesa da paz– ele contrapõe o massacre sistemático de civis, perpetrado para enriquecer a elite. Os intelectuais eram, são, a casta que edulcora com ideias o interesse material da classe dominante.

A linguagem é o núcleo da sua obra. Assim como se alimenta, a espécie humana chega à linguagem. Não é preciso coagir as crianças a aprendê-la. Elas têm uma gramática inata que, com uns poucos estímulos, as leva a pensar, criar e se comunicar.

É assim, prescindindo da coação da força, que Chomsky aperta o nó que ata linguagem, liberdade e luta. Chomsky dá como exemplo a escravidão, que no século 19 "era considerada legítima, até estimável". Foram anos e anos de lutas, fundamentadas na gramática dos argumentos e da emoção, até que ela terminasse.

As mudanças podem ser bem rápidas. Há meses, quem denunciava a matança de Israel em Gaza era xingado de antissemita pelos intelectuais sicofantas. Hoje não mais. Cerca de 80 universidades americanas estão conflagradas pelo movimento antiguerra, inclusive o MIT de Chomsky.

Ele teve uma experiência semelhante em 1967, ao participar de um protesto contra a invasão do Vietnã. Em "Sobre a Resistência", reproduzido em "O Essencial Chomsky", escreveu um artigo para os que compartilhavam sua "aversão instintiva ao ativismo".

Parou de pagar impostos para não financiar a carnificina, foi a mais manifestações, acabou preso –e os vietnamitas venceram a maior máquina de matar de todos os tempos. Tiveram a solidariedade de Chomsky em pensamento, palavras e atos.

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