O deficit verdadeiro


Crer, seja no que for, parece necessidade imperiosa. As pessoas defrontam-se ao longo da vida com tantos desafios, que não têm como fugir. Movidas ora pelo desejo de compreender o mundo à sua volta; ora por não terem resposta às suas dúvidas; seja por mera curiosidade; seja ainda pelo encontro de soluções que as façam vencer as dificuldades – os seres humanos são levados a crer. Mesmo que a crença não se dirija a um ser imaterial ou divinizado, sem o sentimento a que a religião chama fé, parece impossível alimentar qualquer esperança. Não se trata, portanto, de alguma das virtudes teológicas: fé, esperança, caridade. Apenas a busca de dar sentido à vida, enquanto ela reste. A contemplação do futuro e o desejo de torna-lo melhor, para o próprio indivíduo, como para todos e tudo o que o cerca. A crença, neste caso, dirige-se à qualidade da relação com o outro, como a apreciamos e como podemos conduzi-la. Crer em valores firme e conscientemente construídos, não na expectativa de ganhar o reino dos céus, um retorno ao Paraíso, mas assegurar paz fundada na fraternidade, desfrutada por todos, em todo lugar na Terra. Neste caso, impõe-se formular outro conceito para a caridade, pelo menos como ela é entendida e praticada por grande parte dos que se dizem fiéis fervorosos desta ou daquela religião ou seita.

Muitas vezes o fanatismo submete os ditos crentes, com o que sua crença não passa de desvario e corresponde à inclusão deles em rebanho diferente daquele ao qual aludem os textos e a pregação dos sacerdotes. Desviam-se, assim, das considerações religiosas, e dão motivo para apreciação fundada na zoologia. Mais, ainda, quando suas práticas agridem a própria condição humana. Toda sorte de preconceito e discriminação corresponde ao que se pode considerar – à falta de expressão melhor – um déficit de humanidade. O cotidiano e a experiência de cada um registram as evidências disso. Não é de outra coisa que se trata, quando observada a caridade como uma forma de purgar pecados seguidos de fugaz remorso. Daí a desagradável percepção de quanto a muitos agradam a carência e o sofrimento alheios. Não mais - para numerosos membros do rebanho – que a oportunidade de mostrarem-se “caridosos”. A prevalência dessa atitude substitui o empenho por criar, ampliar e bem gerir políticas públicas por gestos falsamente generosos. Uma espécie de perder os anéis, mantendo intactos os dedos. Estes, muitas vezes empregados direta ou indiretamente na pressão sobre o gatilho de uma arma de fogo. Raramente usada contra os malfeitores as sociedade, quando não propositalmente direcionada aos que reclamam condições humanas de sobrevivência.

Nas repetidas orações e nos textos do Papa Francisco encontram-se os fundamentos mais próximos da pregação do andarilho de Nazaré, sempre lembrada a interpretação dada pelo primeiro Francisco, em Assis. Longe de retirar o caráter divino atribuído pelo Chefe da Igreja às palavras ditas por ou atribuídas a Cristo, ele apenas tenta recuperar os valores cultivados e cultuados por Jesus e seus doze camaradas, faz dois milênios.

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