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Novos guetos

As pessoas das gerações anteriores, desde que se entenderam por gente, tiveram na escola um dos ambientes mais propícios à sua inserção no Mundo. A escola era vista (e não me conste ter perdido essa condição) como espaço de socialização, condenados que estamos a ser membros de uma comunidade. Condenação, logo seja dito, sem a qual sequer poderemos alcançar as condições que nos dão o privilégio (?) de ser considerados humanos. Como previsto por muitos estudiosos antes do final do segundo milênio, uma onda individualista seria disseminada no futuro próximo. Dentre esses leitores do Mundo, John Naisbitt (Megatrends 2000, 1982) incluiu a tendência dos novos tempos à

prevalência da individualidade sobre a sociabilidade. Em linguagem sem eufemismo ou pernosticismo, a troca da condição humana pela percepção individualista. Se aquela resulta do próprio fato de o ser dito inteligente relacionar-se com outros seres semelhantes, o individualismo o faz distante do outro. Assim, para este o Mundo pode ser inscrito em círculo cujo centro é o próprio umbigo e cuja circunferência ocupa o espaço entre a unha do dedão do pé e o calcanhar. O Mundo (espaço geográfico) e o mundo (a sociedade e as relações interpessoais) desses, portanto, ignora tudo quanto fuja aos interesses, objetivos, aspirações e conduta do próprio indivíduo. Sua - e só dele - vida é tudo quanto lhe interessa, seja qual for o grau de desigualdade que isso possa determinar. Os resultados disso, só os imbecis, idiotas e desonestos não veem e sentem. A tentativa de criar os guetos com que se comprazem os que tudo têm e ainda querem mais parece-me inspirador do projeto de lei que a Câmara Federal acaba de aprovar, estabelecendo o que (na linguagem preferida dos imitadores baratos) vem sendo chamado de homeschoolling, é triste sinal que Naisbitt antecipou. Assim como os condomínios são reveladores da injustiça social aguda que se estabeleceu nas cidades e só prospera, a escola domiciliar parece exemplo do mesmo fenômeno. Tanto quanto nos instalamos em novas medinas (espaços murados das cidades), desejamos dar aos nossos menores educação que evite o contágio com pessoas diferentes. Ou seja, se outro inconveniente (neste caso, ofensivo à própria condição humana) não houvesse, a simples constatação de que serão diferentes o Mundo e o mundo vistos pelos estudantes cuja escola é só família, bastaria para justificar reservas ao projeto a ser apreciado pelo Senado. Ainda que não se trate de uma convicção definitiva e cabal, penso que os educadores têm enorme tarefa a cumprir, antes que a um dia chamada Câmara Alta do parlamento brasileiro aprove o que pode ser a nova forma de criar guetos nas cidades. Os mais conhecidos apareceram durante a Segunda Guerra, em que nazistas e democratas (?) se mataram. A guerra de hoje é contra a educação e a humanização.

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