Noite e dias

Dura quase um ano, desde que o novo coronavírus entrou nas águas e terras da Santa Cruz. Não estavam em campo os católicos e os protestantes chamados huguenotes, nem se poderia esperar um casamento real, a despeito das práticas monárquicas dos (oh, palavrão horrível!) os empoderados de plantão. Nem eram as cidades francesas desta vez abaladas pelo sangue derramado. Nós também tivemos, não a noite de São Bartolomeu, mas a rigor vimos tendo o ano do Satanás. Seria demasiado impróprio dar nome de santo aos que patrocinam o genocídio em curso. Corria o 1572, quando o conflito entre católicos e protestantes se agravou, não bastando o casamento de uma Valois com Henrique de Navarra, líder dos huguenotes. Não havia o centrão, esse algodão entre cristais que sabe manejar seu próprio empoderamento (com perdão da má palavra). E quase 300 mil mortos são preço pequeno a ser pago, desde que não sejam os próprios parentes e apaniguados. Cúmplices, como tantas vezes se tem observado. A passagem de 23 para 24 de agosto daquele ano do já distante século XVI, à falta de um vírus prestigiado e reverenciado, via cabeças rolarem sob o olhar embevecido, satisfeito e agradecido dos poderosos e ricos da época. E a tradição juntou outros acontecimentos aleatórios ao longo da História, para a data (24, em especial) receber o nome de noite de São Bartolomeu. Entre nós, não são católicos e protestantes que medem forças, mas ricos e pobres. Nem o ímpeto assassino se faz menor, como 22 de abril de 2020 anunciara e nos recusamos a ver. Foi naqueles trágicos instantes proclamado pelo poder o que seria de nós - está sendo. Paulo Guedes disse com todas as palavras (e palavrões obscenos, porque a língua dos poderosos de hoje) que os grandes é que merecem a riqueza que todos produzem. Os outros só dão prejuízo. Não faltou quem defendesse o assassínio não de huguenotes, porque se os havia, tinham assento na plenária alvoroçada, mas de autoridades do Poder Judiciário. Ambos – um, titular da Pasta da Educação, outro da Pasta do Meio Ambiente – ladeando um atônito, perplexo, enojado profissional com os olhos esbugalhados correndo célere de um a outro dos sacerdotes do ódio. Ambos disseram a que vinham, fiéis ao que o Presidente da mesa defende, cada dia com maior ardor e entusiasmo. Afinal, todos morreremos um dia. E se a morte é a partida para ambiente de doçura celestial, por que impedir que muitos antecipem sua partida? O capeta, portanto, tem dia certo no calendário: o mesmo em que o nauta Pedro Álvaro Cabral chegava para colher o que os portugueses da época pensavam que lhes pertencia.


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