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NO CHARCO, A LIBÉLULA...



Ramayana de Chevalier*




DENTRO da manhã clara, saboreio um livro. Na orelha dele, um


comentário altamente vivo e ilustre: o de Luiz Bacellar. Apresentação?


Não creio. Uma síntese. Um grito feérico e deslumbrado. Algo de


necessário para a elucidação do caminho, como a lâmpada ao alto da


testa de um mineiro. Antes de tudo, senhores, eu vou falar de poesia,


com licença da palavra. Vivemos num subterrâneo tão lôbrego, num


subsolo espiritual tão denso, que a poesia passou a representar uma


carga pesada. Admiro profundamente os que se erguem, por sobre o


charco, com a leveza e o cromatismo das libélulas. Pobre de nós se não


fossem as mulheres, certas mulheres! Como seria triste e desolado este


pobre mundo de calígulas! A poesia encontra nelas o seu amplificador e


a sua resposta. E nos artistas, o essencial é a resposta. Não buscam


prêmios, não querem dinheiro, não se azinhavraram os que sonham e


escrevem. Procuram compreensão, solidariedade, um reflexo de carinho e


de entendimento. Assim deve sentir Elson Farias, um poeta autêntico.


Nestes últimos tempos, não li nada que chegasse à altura dos versos de


Barro Verde. Raramente, no Brasil, uma estreia tem surgido com o


vigor, a raça, a beleza e o sentimento desse livro, que o Grupo


Madrugada paraninfou, este ano. A poemática de Elson Farias tem o


poder divinatório, a amplitude cósmica, o segredo maduro da de Paulo


Bonfim. Sem perder as suas características amazônicas, original,


candente e quase bíblico, Barro Verde pertence à galeria dos livros


eternos. Não veio tartamudo ou hesitante, como os que principiam.


Dealbou solene e místico, quase clássico, no sentido cristalizado do


termo. As suas imagens são belas e vastas, mergulham nas águas, fogem


das paisagens vulgares, usam palavras novas, talham proporções


inéditas, escancaram abismos ou levantam minaretes jamais suspeitados.


“Serás boa e rara, pedra concentrada, gotejando lascas”. São assim as


suas ideias, a sua interpretação fecunda e o seu conceito estético.


Elson Farias começou a sua marcha na vanguarda. Não o conheço, não sei


do seu destino, não senti as raízes de onde derivam as suas imagens.


Sei que é um poeta, alto, canoro, forte, limpo e santo, da estirpe dos


Chocano, dos Bonfim, dos Baudelaire. Quando a alma se prepara em luz


para a suprema descida, tem essa cor, possui essa inspiração.


Batem os pregos, rugem as engrenagens, amolecem as chapas


ferruginosas, cintilam as chispas do maçarico, o mundo vive a sua


vertigem, constrói o seu mausoléu. E ninguém escuta a flor que nasceu


no trópico, ninguém presta atenção ao vibrar de asas da libélula


feliz, sobrevoando os pauis remotos. O seu universo é feito de


harmonias incriadas, o seu mundo é tecido em gemidos e réquiens


desesperados. “Delírios de tessituras fatigadas, vestem cores e se


perdem”. Esperanças em versos, delírios gigantescos, visões que só os


malditos sentem e veem.


Há versos em Elson Farias, que me tocaram fundo. “O anjo claro e grave


pervaga a fronte terna, em busca da bem-amada manhã”. O que significa


isso para o industrial, para o rábula, para o homem prático? Palavras,


costuradas pelo ócio. Quem entenderá essas senhas, sem as quais


ninguém transporá o Aqueronte da dor? Ele mesmo responde, mais


adiante: “palavra nasce e morre, canta e se exaspera, chora e se


enternece”.


Sim, são de barro as palavras, são modeladoras de vertigens, são dedos


ágeis plasmando aquelas vasilhas incaicas de [José Santos Chocano


Gastañodi] Chocano. Num mundo tonto e vazio, dormindo nos museus as


criações mais tranquilas, revolvido o espaço pelos luniques audazes,


morto o homem que vagueia como o lobo na estepe, o que será a poesia,


como essa de Elson Farias, cântico, interpretação, mensagem, bálsamo?


Ele não precisou de consultar o livro [maia] de Chilam-Balam, nem


investiu sobre os Maias, na procura da chave. Foi ao futuro, num


estilete de luz, e de lá voltou com a figura da eternidade. Nativismo


tão pleno e tão só, que dispara flechas no tempo. Exaltação da terra e


das gentes, sem acangataras.


Tenho vontade de gritar para os homens do Sul, que venham ver nascer


um grande poeta, que venham sentir a alvorada de uma alma no limbo!


Não, é melhor calar. Que adianta? Ouvir-me-ão? Quem ouve os pobres


distantes? “Na boca da noite as plantas gritam”. “Na tina de águas


velhas e na fina saracura que enfiara o bico verde, na pétrea manhã


lúcida dos galos”. E mais tarde, o poeta, “irreal como um gole de lua


sobre o rio”, derrama na enxurrada das imagens sem duplo. Transcrever?


É mutilar, é colocar em museu anatômico restos de deuses gregos,


pedaços de sonetos de boêmios egípcios, é engessar pernas dilaceradas


pelos “automóbiles ruggentes” de [Filippo Tommaso] Marinetti. Já estou


na idade de O Livro de San Michele [Axel Munthe]. Pedaços de basalto,


de pórfiro rosa, de ônix palpitante? Roba de Timberio. O passado não


vale um minuto de contemplação do futuro. Pesa. Traz consigo a


salsugem dos mares jurássicos. Tem um conteúdo de derrota de pêsames,


de covardias hipócritas.


A poesia da libélula vem da luz. O charco é triste e negro, já passou.


Eu não envelhecerei jamais, porque a carne não me vencerá, porque o


meu mundo está por vir, porque tenho uma entrada comprada na


arquibancada de Elson Farias, para assistir ao balé do século XXI. Meu


corpo é feito de barro verde, minh'alma é pintada pelos ocasos da


idade do urânio. O livro de Elson Farias está flutuando sobre o


pântano. Pode ser um resto de sol, pode ser uma voz que subiu dos


peraus, lembra a libélula, ensaio de vidro, móbile de artista,


desvendando a terra que ninguém conhece. Não faço crítica, tenho


substância. Olho, com olhos sonâmbulos e desvairados a corrida dos


ponteiros na maratona da Morte. E, nessa hora, diante de um poeta


assim, eu me perfilo, para saudá-lo.

__________________________________________________________________________________

*Ramayana (1909-1972), médico e membro da Academia Amazonense de Letras, saudou a estreia do poeta ELSON FARIAS, em texto publicado n' A GAZETA, 20 de junho de 1961. Prestes a completar 90 anos, o autor de Barro Verde continua no fazer poético. Com admirável lucidez e percepção do cotidiano, ele põe sabedoria e inspiração em seus trabalhos, trazidas do Roseiral em que nasceu, em Itacoatiara-AM. .

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