Nem parece

...que faz tanto tempo. Ou será que não faz tanto tempo assim? Éramos poucos mais que 30 jovens bacharéis em Direito. A solenidade de formatura, constrangida pelo guante da ditadura, teve algo de diferente. Só se assemelhava à das turmas anteriores porque dentre os componentes do grupo de formandos se encontravam cidadãos dispostos a tornar o mundo melhor. Supúnhamos que logo o autoritarismo seria vencido e, retornado o primado da democracia, chegaria a oportunidade de contribuir para a caminhada que - doce e, ainda bem, permanente sonho! - nos aproximaria ao menos da liberdade, da igualdade e da fraternidade tanto e tanto sonhada. Aprendêramos nos cinco anos de Universidade, a ver o Mundo, suas coisas e suas gentes como a preocupação maior de nossas vidas, pessoal, profissional e, por isso mesmo, política. Dos instrumentos capazes de servir à causa desde cedo abraçada éramos detentores. Nesse caso, mestres da mais diversas ideologia nos haviam dotado. Poucos de nós, talvez, tivessem plena consciência de que era assim. Mas era, e quem o diz não é este participante da cerimônia de 18 de dezembro de 1965. Sessão cujo momento mais eloquente se fez em completa mudez. O orador da turma, meu querido amigo-irmão Pedro Cruz Galvão de Lima, fora proibido de pronunciar seu discurso em nome da turma Alceu de Amoroso Lima, Tristão de Ataíde. O paraninfo, Professor Edgard Olintho Contente, não fez por menos. Fechou-se em indignado mutismo. De lá para cá, os jurisconsultos, os magistrados, os procuradores, os doutrinadores - se ainda os há - admitiram o labéu de operadores. Alguns veem grandeza em serem chamados assim, uma forma de perdão prévio concedido ao desinteresse pela apreciação profunda, radical, dos fatos submetidos ao seu estudo, parecer, às vezes sentença. Chega-se aos 55 anos de diplomados em Direito, com certo sabor amargo a morder a língua. O mutismo da cerimônia não impediu percebermos o mundo em permanente mutação. Nem ignorar quanto o anúncio daquele silêncio tornou-se vão.

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