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Na linha de tiro

Cresce a literatura sobre o infausto período histórico de que somos protagonistas e pacientes. Têm-se posto em questão fenômenos relacionados sobretudo à fragilização da democracia. Pouco a pouco, sente-se o avanço em escala mundial de percepção do mundo capaz de forjar uma sociedade globalizada em marcha acelerada para a barbárie. Para alguns autores, as próprias populações têm emprestado seu apoio a conceitos e práticas que põem por terra o que dizia Churchill: a democracia é o pior sistema de governo, à exceção de todos os demais. Autor norte-americano, Yascha Mounk chega a identificar formas liberais sem liberdade ou autoritarismo populista. Não é à toa ou desatento aos fatos que o estudioso intitula seu livro – O povo contra a democracia. Um paradoxo, se tal sistema for concebido e percebido como o governo do povo, pelo povo e para o povo. Mesmo que se tracem comentários desairosos às ideias e conclusões de Mounk, há evidentes sinais de que pelo menos parcialmente suas suspeitas têm fundamento. Chegar à conclusão de que o nazi-fascismo avança em todos os continentes não parece bastar à compreensão do problema. O descolamento entre a representação popular e as carências das populações, de que resulta o baixo e decrescente índice de representatividade política é apenas um dos sinais mais evidentes. Há outros, porém, aos quais têm sido dada insuficiente atenção. Um deles, a volta, revigorada e frequentemente disfarçada, da percepção da questão social como problema policial. Em consequência, a retomada de políticas públicas timbradas pela militarização e fortalecimento do aparelho de segurança dos países. Talvez não seja o caso de afirmar estar-se repetindo o período em que a segurança nacional (com a correspondente intranquilidade dos cidadãos) dava o tom da percepção e da intervenção do Estado e de seus agentes. Embora os resultados das políticas inspiradas por essa visão de mundo enviesada não tenham melhorado a vida da maioria das populações, insiste-se nelas. É possível que nenhum outro exemplo seja tão ilustrativo quanto a intervenção das Forças Armadas brasileiras nos morros do Rio de Janeiro. A pacificação feita ao peso das armas tem-se mostrado inócua, ainda mais quando apreciável fortuna em pó foi transportada mais tarde para o exterior em avião da comitiva presidencial. Segundo as informações até agora reunidas, a sétima ou oitava vez em que tal operação foi realizada. O repiquete agora registrado na Colômbia é outro exemplo que não pode escapar do olhar interessado. Na outra ponta, observam-se o crescimento do tráfico de drogas e a ampliação da concentração de renda. À crescente acumulação da riqueza em reduzidíssima parte da população corresponde a insegurança em que vivem todos. Sendo que, neste caso, os detentores da maior parte dessa riqueza encontram sempre meios de atuar com razoável eficiência, seja pela capacidade econômica de usar aparato pessoal e tecnológico de defesa, seja quanto à capacidade de mobilizar as forças da repressão. A frustração característica no combate ao tráfico de tóxicos parece compensada pelos resultados da ação repressora, majoritariamente voltada para os pobres, qualquer que seja sua cor ou atividade. Quando calha de alguns terem-na habitualmente. Aos que não a têm, socorre sempre a possibilidade de aliar-se aos delinquentes. E o tráfico de drogas e o domínio de territórios vai-se espalhando e crescendo, sem que se altere a tragédia dos segmentos que constituem a enorme base da pirâmide socioeconômica. É inadequado afirmar que tudo isso configura a repetição da História. As formas de destruir a democracia e de manter submissão da maioria hoje são mais sutis e sustentadas pela mais avançada tecnologia. Quando facilidades para adquirir armas são oferecidas pelo poder público, ou quando outros agentes do Estado em qualquer dos seus níveis são autorizados ao uso desses instrumentos da morte, é mais um tiro que se dá na democracia. Agonizante, talvez não demore o sistema que o premier britânico Winston Churchill considerava o pior, à exceção de todos os demais, a receber o tiro de misericórdia.

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É verdade que o arsenal desses retrógrados é mais sofisticado e que a mentira não causa mais indignação para muitos, mas se houve evolução tecnológica e retrocesso moral, a raiz de tudo está no individualismo, no sentido mais egocêntrico e hipócrita que se possa atribuir ao vocábulo.

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