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Mutismo eloquente

Frequentemente, o que não foi dito esclarece muito mais que milhões de palavras proferidas. Nem sempre é a palavra saída da boca dos protagonistas e de sua oratória inflamada que nos pode levar ao melhor juízo. A expressão silenciada, a frase muda que a expressão facial às vezes substitui, o olhar enviesado, o esgar pendurado no canto da boca, tudo isso pode ser tão eloquente quão esclarecedor. Quem assistiu, ao vivo ou nas telas da televisão, a inauguração de um conjunto popular em Maceió, na última sexta-feira, conferirá o que aqui registro. Talvez assim, a impressão de que as vaias recebidas pelo Presidente da Câmara criaram um clima de constrangimento e mal-estar para Lula, possam ser vistas sob outro ângulo. Que alguém, naquele palanque sincrético, saiu ganhando, não há dúvida. O ganhador não terá sido, ora pois, o deputado Arthur Lira. A indignação por ele mostrada equivale à sensação de que experimentava um revés. Nem se precisa levar o raciocínio por vieses quase absurdos. Seria quase despropositado afirmar que as vaias podem ter sido encomendadas pelo próprio Partido dos Trabalhadores. Apenas uma peça do cenário, adequada à generosa e oportuna intervenção de Lula. Logo depois do discurso de Lira, coube ao Presidente da República dirigir-se à numerosa plateia. Em sua oração, Lula deixou claro, sem precisar ser direto, que a cerimônia se justificava como referente a uma iniciativa do governo federal. Lira, ali, era um convidado. Isso ele disse. Menos que isso, um figurante. Isso Lula não disse. O bastante para trazer para seu governo o crédito devido à entrega de um conjunto habitacional. Ao mesmo tempo, a participação do Presidente da Câmara ficou suficientemente clara. Por isso, o dono da festa poderia exigir respeito ao seu convidado. Algo muito mais constrangedor para o alvo das vaias que a própria assoada dos presentes.


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