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Mudanças e o gume da navalha

Seria desperdício de tempo relacionar todos os pensadores, grandes e reconhecidos ou pequenos e obscuros, que um dia dedicaram seu tempo a tratar das ideias. Esse é mundo a que nem um só ser humano consegue fugir. Nem todos o percebem, todavia. Por isso, desde Shakespeare até Unamuno, não têm sido poucos os que dedicam parte do seu tempo a tratar do assunto. Destaco, por oportuno, o reconhecimento de que só não muda de ideias quem não as têm. Por isso, e talvez porque não se vivem oito décadas sem consequências, não me surpreendem nem me assustam as mudanças operadas no cérebro (em alguns casos, de existência discutível) de certas pessoas ou meios apenas portadores das ideias que nele se constroem. Nem precisei esperar que o País fosse (des)governado pela chusma que dele tomou conta, para chegar a essa simplória (?) conclusão. Essa a razão para admitir a legitimidade de o Estado de São Paulo, quando passa a defender o Estado Democrático de Direito. O comentário decorre da leitura de matéria editada nesse órgão tradicional (em todos os sentidos) da elite paulista, em 1935. O importante discurso do sr. (é assim que está grafado) Hitler estabelece enorme diferença com o conteúdo de matérias mais recentes, em que o que foi dito faz mais de 80 anos é confrontado e negado. Embora negar o passado, tentar apagar a História seja exercício danoso à sociedade, entender cada momento ou período da trajetória humana e, a partir dele, construir o futuro, parece-me desejável. A rigor, muitos dos brasileiros devotados às melhores causas da democracia e da humanidade tiveram alguma simpatia, quando não certo alinhamento, com o nazifascismo, nas primeira décadas do sec. XX. Nosso querido e sempre lembrado Dom Hélder Câmara dentre eles. Nem por isso a contribuição do religioso que Nélson Rodrigues apelidou arcebispo vermelho é desprezível ou desmerece o aplauso da sociedade. Ao contrário, ao padre pernambucano muito devemos, todos os brasileiros que optam pelo amor e pela solidariedade, enquanto e sempre que durar o fluxo do sangue dentro de suas veias e artérias. Os que mudam de ideias, têm dito alguns dos que tratam delas, nem por as terem deixam de ser orientados pelos seus interesses. Aqui, portanto, o núcleo legítimo de nossas preocupações. Distinguir entre os que mudam as ideias antes expostas e orientadoras da conduta por terem alterado sua visão de ver o mundo, suas gentes e suas coisas e relações, e outros que o fazem porque interesses menores e ilegítimos os orientam - deve constituir-se no centro de nossas atenções. Determinar a qual dessas perspectivas corresponde a conduta atual do Estadão, portanto, é o que nos cabe. Por enquanto, seja bem-vinda sus suposta intenção de concorrer para o fortalecimento e o aprofundamento da incipiente e hesitante democracia sempre posta no gume da navalha.

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