Morte cívica
Causas não têm faltado, para explicar os fenômenos políticos. De natureza, interesses e intenções variadas, elas têm ocupado grande parte do tempo e do espaço disponível aos analistas, cientistas políticos e profissionais da palavra - escrita ou oral. Ontem, como hoje. Nada diferente é a apresentação, de todos os lados, das supostas causas para o fortalecimento da extrema direita, que os números do 1°turno deixam evidentes. Já não basta, porém, dizer que repercute no Brasil a vaga ultra direitista que varre o Planeta. Também é pouco indicar as práticas delituosas de muitas das lideranças da direita e dos meios de comunicação como responsáveis pelo fenômeno. O que é certo é admitir o expressivo avanço da extrema direita e perceber quanto um eventual governo lacaio pode representar. Para o povo brasileiro, pelo que a condição de colônia traz consigo; para as futuras gerações, nossos filhos e netos, diante dos compromissos subalternos eventualmente assumidos com os donos do Mundo; para a crescente importância do País, ameaçado em sua soberania e corroída sua credibilidade no concerto internacional. Esses aspectos, que reputo importantíssimos, devem ser a bússola orientadora da campanha do 2°turno. Os números referentes à abstenção podem ser devidos a várias causas, não apenas ao suposto cansaço do eleitorado. De tanto não testemunhar avanços expressivos e duradouros, em termos sociais e econômicos, essa parcela do eleitorado não votou. Dentre eles, os maiores de 70 anos, dispensados legalmente do dever de votar. Dizia-se do senado romano, lá estarem os verdadeiros consultores do governo. A tanto autorizaria sua experiência, que se tornava impossível não ouvir sua palavra. O estado republicano moderno, democraticamente organizado, não pode dar-se o luxo de dispensar a manifestação, nas urnas, dos que alcançaram a senectude, sem a senilidade. Também parece mais com esta que com aquela, a conduta de maiores de 70 anos, em plena lucidez, que se negam à mais efetiva das formas de exercício democrático. A indiferença destes, com justiça, apaga qualquer contribuição que tenham dado algum dia ao processo democrático. Pode marcar um fim de vida que, com toda a força vital presente, revela a morte cívica do cidadão.


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