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MEMÓRIA COMO RESISTÊNCIA

José Alcimar de Oliveira *


Há 40 anos, em 26 de fevereiro de 1983, na igreja de S. Jorge, o Santo Guerreiro, em Manaus, AM, recebi a ordenação sacerdotal.

Não teria como nomear aqui tantas e tantos, amigas e amigos, de luta, fé e coragem, ali presentes. Gente de credos vários, agnósticos, ateus, até crentes em Deus, estavam lá.

Calma, caminhantes! Penso que acredito mais em Deus do que Ele em mim. Os maiores inimigos de Jesus de Nazaré vinham do mundo religioso: fariseus e mestres da Lei. Evangelho é movimento e libertação. Religião imobiliza e escraviza.

Sob um rico leque ideológico que ia do Apostolado da Oração à antiga Convergência Socialista, ninguém foi excluído da festa comum naquele 26 de fevereiro de 1983.

Celebração, à época, que guardo até hoje na memória, do Deus do Povo e do Povo de Deus, com direito a pandeiro, atabaque, batuque e ladainha dos santos e mártires.

Mesmo a contragosto do bispo ordenante, o saudoso Dom Milton Corrêa Pereira, incluí na ladainha o nome de Dom Oscar Romero, assassinado em 24 de março de 1980 pelas forças militares em San Salvador durante a celebração da missa.

Com o meu gesto heterodoxo havia "canonizado" Dom Romero antes do Papa Francisco oficialmente fazê-lo em 14 de outubro de 2018.

Luminosos anos de 1980, de trabalho de base, Círculos Bíblicos, CPT, CIMI, Pastoral Operária. Tempos de Teologia da Libertação, de parceria teórico-prática entre Jesus de Nazaré, Mouro de Trier e seu fiel General. A ortopraxia tinha precedência epistêmica e teológica sobre a ortodoxia.

Tempos de Dom Zumbi, Cardeal Arns, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Fragoso, Chico Mendes, Marçal Guarani. Tempos em que a política era mediação fecunda para quem vivia a fé no Evangelho libertador a partir das contradições da sociedade capitalista de classes.

Em tempos sombrios, de afronta à cultura, de falsificação da história, de ódio ao pensamento e criminalização dos movimentos sociais, é preciso trabalhar a memória como ato de resistência.

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* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, aos 26 de fevereiro de 2023.

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