Marcha-a-ré


Em outros textos publicados encontram-se comentários e análises da reunião do Presidente da República com o primeiro escalão da administração pública Federal, realizada em 22 de abril último. A data corresponde, exatamente, à marca dos 520 anos da chegada dos portugueses a Pindorama. Se há consenso sobre o caráter intencional da viagem comandada por Cabral, na reunião do Planalto algo pode ser descoberto. Neste caso, as intenções e inspirações mobilizadores das forças alinhadas ao capitão excluído das forças armadas brasileiras. Deem-se por vistas as grosserias e formas de ver o mundo e suas gentes pelo ex-capitão, absoluta e adequadamente traduzidas nas obscenidades que recheiam o linguajar presidencial. A rigor, nenhuma pessoa alfabetizada esperaria do Presidente conduta e palavrório diferentes. Ele é do jeito que é – ponto.

Chama a atenção, mesmo sem constituir originalidade, o comportamento dos auxiliares de Jair Messias Bolsonaro, e não só os que se manifestaram verbalmente. Outros, paradoxalmente, mostraram enorme eloquência no silêncio que fizeram questão de manter. Enfim, um silêncio assaz revelador!

Dos que disseram alguma coisa, sem dizer coisa-com-coisa, não há como ignorar as figuras exponenciais de três dos sinistros: o da (des)educação, o do meio ambiente, turismo e cultura e a das mulheres, direitos humanos (?) e cidadania. Desde logo cabe justificar por que dizê-los exponenciais: a capacidade de contaminação que suas palavras deixam ostensiva dá conta disso. Seria ingênuo imaginar inexistirem pessoas sensíveis à peroração irresponsável do trio.

Nem sempre a indiferença é o melhor que se faz, diante do ataque - de um vírus, de um verme ou de qualquer outro agente maligno. A própria crise sanitária, propícia a fazer a boiada passar, como disse Ricardo Salles, recomenda rejeitar a indiferença.

Comecemos, portanto, por esse membro do governo, sabidamente inimigo do ambiente e dos habitantes de outros lugares, que não os salões onde se trama o genocídio em marcha. A índole e as convicções (só isso) de Ricardo Salles resumem os valores do governo de que ele faz parte. Há, é certo, o propósito de fragilizar os povos indígenas, cercear a criatividade dos artistas e produtores de cultura, entregar à exploração desenfreada áreas protegidas. Para tanto, concorrem a ação e a omissão das autoridades do sinistério. É bem o caso do extraordinário aumento da devastação registrada na Amazônia. Para alcançar os objetivos, até a morte de dezenas de milhares pode ser aproveitada. O uso macabro da pandemia, não fosse ela mesma uma tragédia.

Abraham Weintraub apenas repetiu o que todos conhecemos. Agressivo, mal-educado, fez-se inesquecível pela covardia não correspondida. Na expectativa de ver ocultada da população a inglória reunião, encheu-se de coragem e bravura. E desandou a percorrer páginas do Código Penal, atassalhando a honra dos membros do Supremo Tribunal Federal. Fez mais, por incrível que pareça: disse ter ido para o governo porque esperava luta. Para isso está lá. Desde que, podemos concluir, sejam ocultados seus atos e mantidas secretas suas ameaças.

Depois das conversas agoiabadas de Damares, o que poderíamos esperar? Além das promessas de prisão para quantos dela divergem e apenas cumprem a Lei, a intervenção na peça tragicômica de 22 de abril contribui para a imagem do Brasil hoje projetada no exterior. O país que um dia o suíço Stephan Zweig afirmou promissor mostra-se digno de passado que já vai longe.

Enfim, em menos de 18 meses retrocedemos mais de 5 séculos.

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