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Mais difícil do que se pensa

Poucas coisas serão tão improváveis quanto imaginar facilidade no ambiente em que o Tripresidente conduzirá o início de sua gestão. Ninguém precisa mais discutir a respeito da extrema habilidade e sabedoria com que Lula trata de Política. Os arranjos para consumar sua subida na rampa do Planalto dão conta dos cálculos que ele sabe fazer como nenhum outro, nas últimas décadas da vida brasileira. Primeiro, a atração de um conservador de carteirinha, se não mais que simples conservador, para acompanhá-lo na disputa e no governo diz muito mais do que pode parecer. Geraldo Alckmin é uma espécie de luva de pelica com que Lula evita irados ataques de seus inimigos (por que Lula os tem mais que adversários). O que o vice-Presidente eleito tem dito só faz crescer o reconhecimento da habilidade do Tripresidente e sua disposição permanente para o diálogo e a superação das divergências, sem impor outra força, que não a do argumento. Persuadir, menos que pressionar, tem sido uma constante na vida pública de Lula, razão de ele ter se tornado respeitado líder sindical e, em seguida, Presidente em uma das maiores democracias mundiais. Mesmo necessário o aprofundamento do Estado Democrático de Direito, e a conversão de parcela considerável de um golpismo irracional a uma verdadeira república democrática, se há alguém a quem se possa atribuir mérito pelo esforço nesse sentido, nenhum outro político tem feito tanto. Isso não basta, porém, para garantir tranquilidade ao governo que se instalará no País, faltam apenas 20 dias. Vêm daí, em grande parte, a reverência e a receptividade das maiores lideranças políticas contemporâneas por sua volta ao poder. O apoio internacional ao Brasil já foi anunciado, e para os amazônidas em especial tem significado superlativo. Mencionar a reativação do Fundo Amazônia, atrativo de bilhões de dólares em troca de boas politicas ambientais seria redundante. A presença de numerosos chefes de Estado e governo ou seus representantes na posse do Tripresidente representa mais que um gesto cortês. É, na verdade, a comprovação das saudações de que ele se fez destinatário, na recente reunião de cúpula para tratar do meio ambiente. Isso quer dizer, apenas, que a comunidade internacional avalia de forma diferente o homem, sua trajetória e seu desempenho como Presidente da República por dois mandatos, em contraste com o que faz quase metade dos eleitores daqui. Ainda assim, minoritária, se contraposta aos 60 milhões dos que sufragaram sua chapa em outubro passado. É no front interno, portanto, que Lula e seus auxiliares encontrarão as dificuldades. Tolerante com o longo elenco de crimes, sob as variadas formas, em que os observadores, analistas, estudiosos e órgãos públicos de controle suspeitam de envolvimento do chefe do (des)governo moribundo permanecem desafiando a Constituição e agredindo o Estado Democrático de Direito. Nem se fale das políticas postas em prática, reconhecidas hoje como de terra arrasada. Se essa herança não bastasse, a hostilidade às mais rudimentares regra de convívio civilizado e progressista constitui obstáculo de superação mais difícil e prolongada. Tem-se que esperar - se ainda há espaço para a esperança - que a segurança de que receberão o bolsa-família e o auxílio a menores de 5 anos leve os recalcitrantes e delinquentes de hoje à necessária e grata conversão. Só isso facilitará à chegada do momento em que a terceira refeição será posta à mesa de mais de 33 milhões de brasileiros. Tornar fácil o que parece difícil, então, será tarefa de todos, em especial dos que raciocinam e o fazem com a cabeça, não com o fígado e o aparelho excretor.

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